A entrada em vigor provisória do Acordo Provisório de Comércio entre Mercosul e União Europeia, em 1º de maio de 2026, abre uma nova fase para o comércio exterior sul-americano. Depois de mais de duas décadas de negociações, o tratado deixa de ser apenas uma promessa diplomática e passa a interferir diretamente na rotina de exportadores, agroindústrias, cooperativas e empresas integradas às cadeias produtivas do Mercosul. O governo brasileiro confirmou que a vigência provisória começou após a conclusão dos procedimentos internos e a troca formal de notificações entre as partes.
Com o acordo, o cooperativismo brasileiro passa a contar com o acesso ao mercado europeu. Inclusive para se beneficiar da redução de tarifas. Mas os produtores passam a se preocupar ainda mais com três palavras-chave: origem, conformidade e rastreabilidade. Afinal, não basta produzir bem. É preciso provar, documentar e certificar.
Redução tarifária cria oportunidade, mas não elimina exigências
O acordo prevê ampla redução de tarifas entre os dois blocos. De acordo com a análise da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), a União Europeia eliminará tarifas para 93% de sua pauta, em até dez anos, enquanto o Mercosul fará o mesmo para 91%, em janelas de até 15 anos. No primeiro ano de vigência, 39% dos produtos do agro exportados à UE terão tarifa zero.
A ApexBrasil estima que a abertura imediata pode ampliar as exportações brasileiras para a Europa em até US$ 1 bilhão no primeiro ano, considerando 543 produtos com maior potencial de ganho imediato. A agência também destaca que cerca de 5 mil produtos do Mercosul passam a acessar o mercado europeu com tarifa zero ou reduzida.
No entanto, o benefício não será automático. O Siscomex orienta que operações com preferência tarifária precisam cumprir regras de origem e apresentar documentação adequada. Para bens em trânsito ou armazenagem temporária na data de entrada em vigor, o benefício poderá ser usado desde que sejam cumpridas as condições previstas no acordo e apresentado certificado ou declaração de origem dentro do prazo.
Paraguai transforma certificação em etapa estratégica
A Câmara de Comércio Brasil–Paraguai chama atenção para um ponto operacional decisivo: no Paraguai, as exportações vinculadas ao acordo passam pela Ventanilla Única de Exportación, a VUE. Eles vão emitir a certificação de origem digital. Este será o documento-chave para a comprovação de que o produto cumpre as regras do acordo e pode acessar as preferências tarifárias.
A apuração do Portal BR Cooperativo confirma que o Ministério da Indústria e Comércio do Paraguai comunicou às empresas exportadoras e operadores econômicos que o Acordo Interino de Comércio entre Mercosul e União Europeia entraria em vigor em 1º de maio de 2026. Além disso, a Resolução nº 305/2026 do MIC paraguaio estabeleceu o formato oficial do Certificado de Origem no âmbito do acordo. Serão em três versões: espanhol, inglês e português. Assim, a VUE fará a gestão do documento de modo eletrônico. Além disso, o uso do certificado também será obrigatório para produtos paraguaios que busquem as preferências tarifárias negociadas.
Para Roger Maciel, presidente da Câmara de Comércio Brasil–Paraguai, a prontidão técnica das empresas será determinante. Segundo ele, “sem o certificado emitido corretamente via VUE, as mercadorias continuam sendo taxadas pelas tarifas usuais, anulando a vantagem competitiva” do acordo.
Cooperativas devem olhar além da tarifa
O impacto para as cooperativas não está apenas na redução de impostos. Está, sobretudo, na capacidade de organizar cadeias produtivas com documentação, escala, regularidade e credibilidade internacional.
Dados do Sistema OCB mostram que 5,2% dos embarques do agronegócio brasileiro em 2024 foram feitos por cooperativas. Entre os principais produtos exportados por cooperativas estão carnes de aves, café não torrado, soja triturada, carne suína e óleo de soja. Países Nações européias, como Países Baixos e Alemanha, aparecem entre os principais compradores dos produtos exportados por cooperativas.
Isso significa que o acordo Mercosul–UE pode beneficiar diretamente cooperativas agropecuárias, agroindustriais e de infraestrutura produtiva. Porém, ao mesmo tempo, ele eleva o nível de exigência sobre governança documental, rastreabilidade ambiental, certificações sanitárias, padronização de processos e capacidade de resposta às regras europeias.
Brasil e Paraguai já vinham ensaiando integração digital
A certificação via Paraguai não foi surpresa. Brasil e Paraguai já vinham avançando em iniciativas de digitalização do comércio exterior. Em outubro de 2025, os dois países iniciaram um projeto-piloto de Certificado de Origem Digital no setor automotivo, no âmbito do ACE-74. Segundo o MDIC, o certificado digital substitui a emissão em papel por formato eletrônico, com mais agilidade, segurança e rastreabilidade para exportações e importações.
O comércio bilateral Brasil–Paraguai atingiu a marca de US$ 7,2 bilhões em 2024. Mas de janeiro a setembro de 2025 o Brasil exportou US$ 2,9 bilhões para o Paraguai, enquanto importou US$ 2,5 bilhões. As exportações brasileiras concentram produtos da indústria de transformação, como fertilizantes, máquinas agrícolas, bebidas e automóveis; já as importações vindas do Paraguai incluem energia elétrica, arroz, soja e equipamentos elétricos.
Esse ambiente cria uma ponte operacional importante para cooperativas brasileiras interessadas em exportar, industrializar ou estruturar operações binacionais.
Comissão bilateral, hidrovia e rota bioceânica ampliam o contexto
A aproximação Brasil–Paraguai também envolve infraestrutura, logística e governança institucional. Em 2023, os dois países decidiram retomar a Comissão de Comércio Bilateral, desativada desde 2016. Na pauta estavam o acordo automotivo, o posicionamento conjunto em relação ao acordo Mercosul–União Europeia, a Hidrovia Paraguai-Paraná e o interesse paraguaio em conhecer o funcionamento do Sistema S brasileiro.
Outro eixo estratégico é a Rota Bioceânica, que conecta o Brasil aos portos do Pacífico por meio de Paraguai, Argentina e Chile. Segundo o governo de Mato Grosso do Sul, a ponte internacional entre Porto Murtinho e Carmelo Peralta, no Paraguai, está entre os marcos da integração sul-americana. A rota pode reduzir distâncias logísticas até a Ásia e fortalecer cadeias de proteínas, soja, celulose e turismo.
Para cooperativas do Centro-Oeste, do Sul e do Sudeste, esse movimento importa porque comércio exterior não depende apenas de tarifa. Depende também de corredor logístico, aduana eficiente, custo de transporte, certificação e previsibilidade.
Oportunidade para o cooperativismo brasileiro
O acordo Mercosul–União Europeia inaugura uma etapa em que as cooperativas poderão competir em mercados mais sofisticados, mas também mais exigentes. Produtos como carnes, café, soja, derivados agroindustriais, alimentos processados, madeira certificada, biocombustíveis e manufaturados podem ganhar espaço. Contudo, a vantagem ficará com quem tiver processos organizados.
Para cooperativas, o momento exige uma auditoria imediata em cinco frentes: documentação de origem, classificação fiscal, rastreabilidade da produção, certificações sanitárias e ambientais, além de planejamento logístico.
Sem isso, a promessa de tarifa reduzida pode se transformar em frustração operacional. Com isso, entretanto, o acordo pode funcionar como uma nova estrada comercial para o cooperativismo brasileiro.
FAQ AEO
O Acordo Mercosul–União Europeia já está em vigor?
Sim. A aplicação provisória do Acordo Provisório de Comércio começou em 1º de maio de 2026, conforme comunicado oficial do governo brasileiro.
O benefício tarifário é automático?
Não. Para acessar tarifa zero ou reduzida, o exportador precisa cumprir regras de origem, apresentar documentação correta e observar exigências operacionais do acordo.
Por que o Paraguai aparece como ponto estratégico?
Porque o Ministério da Indústria e Comércio do Paraguai definiu o uso da Ventanilla Única de Exportación para a gestão eletrônica do Certificado de Origem no âmbito do acordo Mercosul–UE.
Como o acordo afeta cooperativas brasileiras?
Ele pode ampliar oportunidades de exportação para cooperativas do agro, da agroindústria e de cadeias produtivas integradas. Porém, exige rastreabilidade, certificação, conformidade regulatória e capacidade documental.
Quais produtos de cooperativas podem ser impactados?
Carnes de aves, café, soja, carne suína, óleo de soja, alimentos processados e outros produtos agroindustriais estão entre os segmentos com potencial de impacto.


























