O dinheiro está deixando de circular apenas pelos trilhos tradicionais dos bancos. Agora, ele também se move por redes digitais, contratos inteligentes e ativos virtuais. É nesse cenário que as stablecoins, conhecidas como “moedas estáveis”, entram na pauta do Web Summit Rio 2026, evento que será realizado de 8 a 11 de junho, no Riocentro, no Rio de Janeiro, reunindo mais de 30 mil participantes, 600 investidores e 1.500 startups.
A sessão “Stablecoins without borders: building global digital cash” está marcada para 9 de junho, das 11h20 às 11h40, no Stage 5, dentro do Fintech Summit. A divulgação da pauta aponta para o debate entre OKX e Transfero Group sobre dinheiro digital global, pagamentos internacionais, liquidação em tempo real, infraestrutura, conformidade e confiança. Já a programação oficial lista como participantes Márlyson Silva, chairman da Transfero Group, e Saori Honorato, editora-chefe do Portal do Bitcoin.
Para o cooperativismo, o tema não é distante. Afinal, se as cooperativas nasceram para organizar economicamente pessoas em torno de necessidades comuns, o avanço das moedas digitais coloca uma pergunta estratégica: como usar novas infraestruturas financeiras sem comprometer segurança, governança e confiança?
OCB/RJ leva cooperativas ao centro da inovação
A presença do Sistema OCB/RJ no Web Summit Rio 2026 reforça que a transformação digital deixou de ser pauta apenas de startups. Segundo a entidade, a iniciativa busca aproximar cooperativas fluminenses de referências internacionais em tecnologia, investidores, startups e novos modelos de negócio. O próprio Sistema OCB/RJ destaca o evento como uma oportunidade para acelerar a competitividade das cooperativas, inclusive dentro de seu stand no Web Summit.
Nesse contexto, as stablecoins funcionam como uma espécie de “ponte digital” entre o dinheiro tradicional e os ambientes blockchain. Elas não são apenas criptomoedas especulativas. Ao contrário, foram criadas para manter valor estável, geralmente atrelado a uma moeda fiduciária, como dólar, euro ou real.
Portanto, enquanto o Bitcoin é frequentemente comparado a um ativo de alta volatilidade, a stablecoin tenta se comportar como uma moeda digital de valor previsível. É como transformar o dinheiro em uma mensagem instantânea: ele pode atravessar fronteiras, operar 24 horas por dia e reduzir intermediários. Mas toda ponte precisa de pilares sólidos. No caso das stablecoins, esses pilares são reserva, auditoria, regulação, segurança tecnológica e governança.
O que as stablecoins podem oferecer às cooperativas?
Para cooperativas que operam em setores como agro, crédito, infraestrutura, transporte, saúde, consumo e plataforma, as stablecoins podem abrir caminhos relevantes. Em primeiro lugar, elas podem facilitar pagamentos internacionais. Cooperativas agropecuárias exportadoras, por exemplo, lidam frequentemente com câmbio, prazos bancários, custos de remessa e burocracias operacionais.
Com stablecoins, parte dessas operações poderia, em tese, ganhar velocidade e rastreabilidade. A liquidação em tempo real pode reduzir atrasos e melhorar o fluxo de caixa. Para uma cooperativa que precisa pagar fornecedores internacionais ou receber de compradores externos, isso pode representar menos atrito e mais previsibilidade.
Além disso, cooperativas de plataforma, freelancers organizados em cooperativas de trabalho e redes de serviços digitais poderiam usar stablecoins em modelos de pagamento transfronteiriço. Imagine uma cooperativa brasileira de tecnologia prestando serviços para clientes no exterior. Receber em moeda digital estável poderia simplificar a operação? Talvez sim. Porém, apenas se houver conformidade regulatória, contábil e tributária.
Cooperativas de crédito: oportunidade ou alerta?
As cooperativas de crédito talvez estejam entre as mais impactadas por esse debate. Elas já atuam em um ambiente regulado, com forte base comunitária, relacionamento de confiança e oferta de serviços financeiros. Portanto, não podem olhar para stablecoins apenas como ameaça ou moda tecnológica.
Por um lado, as stablecoins podem inspirar novos produtos, parcerias com fintechs, soluções de remessas, tesouraria digital e liquidação mais eficiente. Por outro lado, podem disputar parte da relação financeira com cooperados, principalmente quando o assunto envolve pagamentos, reserva de valor em moeda estrangeira e movimentações internacionais.
A questão central é: a cooperativa será apenas observadora ou poderá se tornar curadora confiável dessa inovação? Como em uma estrada nova, não basta acelerar. É preciso sinalização, regras de trânsito e seguro contra acidentes.
Regulação muda o jogo no Brasil
O debate chega em um momento sensível. O Banco Central publicou, em novembro de 2025, um conjunto de normas para regular o mercado de ativos virtuais. As regras entraram em vigor em 2026 e passaram a exigir autorização, governança, controles internos, segurança, transparência e obrigações de prevenção à lavagem de dinheiro para prestadores de serviços de ativos virtuais. A regulamentação também enquadra certas transações com ativos virtuais referenciados em moeda fiduciária, como stablecoins, dentro do ambiente cambial.
Mais recentemente, a Resolução BCB nº 561/2026 trouxe ajustes ao regime de eFX, serviço de pagamento ou transferência internacional. A norma não representa uma proibição geral das stablecoins no Brasil, mas restringe seu uso em fluxos específicos de liquidação internacional dentro do eFX, exigindo mecanismos regulados de câmbio ou contas em reais de não residentes em determinadas situações.
Para as cooperativas, isso significa que o tema não pode ser tratado apenas pelo prisma da inovação. Ele exige análise jurídica, contábil, cambial, tributária, tecnológica e reputacional.
Riscos: onde a moeda sem fronteira pode criar fronteiras novas
As stablecoins prometem reduzir fronteiras, mas também podem criar novas barreiras. A primeira delas é a confiança nas reservas. Uma stablecoin só é estável se houver lastro, transparência e capacidade de resgate. Caso contrário, o que parece moeda pode se transformar em promessa frágil.
Outro ponto é a conformidade regulatória. Cooperativas são organizações baseadas em participação democrática, responsabilidade social e prestação de contas. Assim, qualquer uso de stablecoins precisa respeitar regras de prevenção à lavagem de dinheiro, identificação de clientes, controles internos e proteção de dados.
Também há riscos operacionais. Carteiras digitais podem ser alvo de golpes, chaves privadas podem ser perdidas e transações em blockchain, frequentemente, são irreversíveis. Em outras palavras, o erro de um clique pode custar caro.
Além disso, há o desafio educacional. Como explicar stablecoins a cooperados de diferentes perfis, idades e níveis de familiaridade digital? Sem educação financeira e digital, a tecnologia pode ampliar desigualdades em vez de reduzi-las.
Onde o cooperativismo pode se diferenciar
Apesar dos riscos, o cooperativismo possui uma vantagem competitiva: a confiança comunitária. Enquanto muitas soluções digitais nascem distantes do usuário comum, as cooperativas podem traduzir tecnologia em serviço acessível, transparente e orientado ao interesse coletivo.
No cooperativismo de crédito, por exemplo, stablecoins podem ser estudadas como infraestrutura complementar, nunca como aventura especulativa. No agro, podem apoiar operações internacionais, desde que integradas a controles cambiais e contratos bem estruturados. Em cooperativas de trabalho e plataforma, podem facilitar recebimentos globais. Já em cooperativas de consumo, poderiam surgir experiências de pagamento digital, cashback tokenizado ou programas de fidelidade — sempre com prudência.
A analogia é simples: a stablecoin pode ser uma nova estrada para o dinheiro. Mas o cooperativismo precisa decidir se vai apenas assistir ao tráfego ou ajudar a construir pedágios justos, sinalização segura e acesso coletivo.
Uma agenda cooperativista para as stablecoins
Para avançar com responsabilidade, o setor cooperativista pode adotar uma agenda em cinco frentes:
1. Educação dos dirigentes e cooperados
Antes de qualquer implantação, é essencial explicar o que são stablecoins, quais são seus riscos e onde elas podem gerar valor real.
2. Estudos regulatórios e jurídicos
Cada ramo cooperativo deve avaliar se o uso dessas moedas digitais é permitido, recomendável e compatível com sua atividade.
3. Parcerias com fintechs reguladas
Cooperativas não precisam reinventar a roda. Podem buscar parceiros com infraestrutura, compliance e auditoria.
4. Pilotos controlados
Projetos pequenos, testáveis e auditáveis ajudam a separar inovação concreta de promessa exagerada.
5. Governança cooperativa
Toda decisão deve passar por transparência, prestação de contas e alinhamento com os interesses dos cooperados.
Conclusão: inovação sem perder a alma cooperativa
As stablecoins chegam ao Web Summit Rio 2026 como símbolo de uma economia mais digital, instantânea e global. Para as cooperativas, elas podem representar oportunidade de modernização, redução de custos e novos serviços. Mas também podem trazer riscos de compliance, segurança, volatilidade regulatória e exclusão digital.
O cooperativismo não deve temer a tecnologia. Porém, também não deve adotá-la como quem embarca em um trem sem saber o destino. A força cooperativa está justamente em unir inovação com prudência, eficiência com participação e tecnologia com confiança.
Afinal, dinheiro sem fronteiras pode ser uma grande ferramenta. Mas, para o cooperativismo, a pergunta principal permanece: essa inovação fortalece o cooperado ou apenas acelera o mercado?
FAQ — Stablecoins, Web Summit Rio 2026 e cooperativismo
Stablecoin é um tipo de ativo digital criado para manter valor estável, geralmente por estar vinculado a uma moeda tradicional, como dólar, euro ou real. Diferentemente de criptomoedas mais voláteis, como o Bitcoin, a stablecoin busca funcionar como uma moeda digital previsível para pagamentos, transferências e liquidações.
Toda stablecoin é um tipo de criptoativo, mas nem todo criptoativo é stablecoin. A principal diferença está na proposta de estabilidade. Enquanto algumas criptomoedas variam muito de preço, as stablecoins tentam acompanhar o valor de uma moeda ou ativo de referência.
Elas podem facilitar pagamentos internacionais, reduzir prazos de liquidação, melhorar o fluxo de caixa, apoiar cooperativas exportadoras, simplificar recebimentos globais e criar novas soluções financeiras digitais. No entanto, seu uso depende de regulação, segurança e governança adequada.
Cooperativas de crédito, agropecuárias, trabalho, plataforma, consumo e tecnologia podem ser impactadas. As cooperativas de crédito devem observar com atenção especial, pois atuam diretamente no ambiente financeiro e regulado.
Os principais riscos envolvem falta de transparência nas reservas, golpes digitais, perda de chaves de acesso, falhas tecnológicas, uso indevido para lavagem de dinheiro, insegurança jurídica e mudanças regulatórias.
Não houve uma proibição geral. As normas recentes do Banco Central regulam o mercado de ativos virtuais e restringem usos específicos, especialmente em certos fluxos de liquidação internacional dentro do eFX. Portanto, o uso de stablecoins precisa ser analisado caso a caso.
Não necessariamente. O caminho mais seguro é estudar o tema, capacitar dirigentes, consultar especialistas jurídicos e regulatórios, criar pilotos controlados e avaliar se a tecnologia gera valor real para os cooperados. Um dos caminhos é seguir a página brcooperativo.com.br/inovacao.
Porque o Web Summit reúne tecnologia, finanças, startups e inovação. A discussão sobre stablecoins mostra como o dinheiro digital está avançando e como organizações tradicionais, incluindo cooperativas, precisam se preparar para esse novo ambiente.


























