O cooperativismo financeiro vive um momento decisivo na relação com as novas gerações. Antes associado, por parte do senso comum, a um público de faixa etária mais alta e ao atendimento presencial, o setor amplia sua presença digital, fortalece aplicativos, internet banking e canais remotos, ao mesmo tempo em que preserva um diferencial histórico: a proximidade com o cooperado.
Esse movimento ganha ainda mais relevância em um cenário de rápida digitalização dos serviços financeiros, mas também de crescimento das fraudes online. Levantamento da Serasa Experian aponta que 51% dos brasileiros já foram vítimas de golpes ou fraudes digitais. Além disso, dados da Kaspersky indicam que o Brasil registrou 553 milhões de tentativas de phishing bloqueadas nos últimos 12 meses.
A combinação entre tecnologia, educação financeira e participação coletiva coloca as cooperativas em posição estratégica para dialogar com a Geração Z, formada por jovens entre 16 e 29 anos, e com os millennials, entre 30 e 44 anos. São públicos que buscam conveniência digital, mas também valorizam propósito, transparência, colaboração e impacto social.
Para João Augusto Fernandes, presidente da Credicom, o cooperativismo financeiro está mais alinhado às novas gerações do que muitos imaginam. Segundo ele, as cooperativas oferecem aos jovens a possibilidade de acessar produtos e serviços financeiros por meios digitais, sem abrir mão da relação humana e da participação nas decisões da instituição.
“Cooperativas financeiras de fato têm como um dos pilares a atuação presencial via postos de atendimento. Mas o que pouco se fala é que elas também podem ser acessadas digitalmente via aplicativo e internet banking. O cooperado pode escolher a melhor maneira de interagir e de gerenciar suas contas, seus investimentos e todos os outros produtos disponíveis”, afirma João Augusto.
A percepção é reforçada pelos dados da 9ª edição do Raio X do Investidor Brasileiro, publicado pela Anbima com base em informações de 2025. Segundo o levantamento citado por Fernandes, 84% da Geração Z prefere realizar investimentos por plataformas digitais, enquanto 11% optam pelo atendimento em agência. Entre os millennials, 75% escolhem o formato online e 22% preferem o presencial.
Portanto, o desafio das cooperativas financeiras não é escolher entre o digital e o presencial, mas integrar os dois ambientes. A presença física continua importante para orientação, relacionamento e construção de confiança. Ao mesmo tempo, os canais digitais respondem à expectativa de rapidez, autonomia e praticidade das novas gerações.
Educação financeira aproxima jovens do cooperativismo
Além da tecnologia, a educação financeira aparece como um dos principais pontos de conexão entre cooperativas e jovens. O tema dialoga diretamente com os princípios do cooperativismo, especialmente o princípio da educação, formação e informação, estabelecido pela Aliança Cooperativa Internacional.
De acordo com o artigo de João Augusto Fernandes, cerca de 30% da Geração Z se declara engajada com sua educação financeira, ante 23% dos millennials. Na Geração X, esse percentual é de 16%. Os números mostram que os jovens estão mais atentos à necessidade de compreender melhor o uso do dinheiro, os investimentos, o crédito e os riscos do ambiente digital.
Esse ponto é essencial porque a digitalização ampliou o acesso aos serviços financeiros, mas também aumentou a exposição a golpes. Falsas centrais de atendimento, pedidos de Pix enviados por criminosos que se passam por familiares ou amigos, páginas falsas de empresas conhecidas e mensagens produzidas com apoio de inteligência artificial estão entre os riscos mais frequentes.
Segundo Paulo Dias, diretor de suporte organizacional da Cooperemb, os golpes evoluíram de forma significativa nos últimos anos. Antes, mensagens com erros evidentes e abordagens genéricas eram mais fáceis de identificar. Agora, criminosos utilizam informações reais, técnicas psicológicas e recursos tecnológicos para transmitir credibilidade e induzir a vítima a agir por impulso.
“Hoje já existem casos de clonagem de voz em que poucos segundos de áudio publicados nas redes sociais são suficientes para reproduzir a fala de uma pessoa. Além disso, a inteligência artificial permite criar mensagens praticamente perfeitas, semelhantes às comunicações oficiais de bancos e empresas”, alerta Paulo Dias.
Nesse contexto, a educação digital passa a ser uma extensão da educação financeira. Para o jovem cooperado, saber investir, poupar e usar crédito de forma consciente também significa aprender a proteger dados, desconfiar de promessas de retorno rápido, verificar canais oficiais e evitar decisões tomadas sob pressão.
Jovem cooperado busca conveniência, propósito e participação
A entrada das novas gerações no cooperativismo financeiro também está ligada a uma mudança cultural. Jovens não querem apenas consumir serviços. Eles desejam participar, opinar, entender o impacto das instituições e construir relações mais transparentes.
Esse comportamento se aproxima da lógica cooperativista. Diferentemente dos bancos tradicionais, nas cooperativas o usuário não é apenas cliente. Ele é cooperado, dono do negócio, participa dos resultados e pode influenciar os rumos da instituição por meio dos canais de governança.
Para João Augusto Fernandes, participar de uma cooperativa significa desenvolver competências cada vez mais valorizadas no mercado atual, como liderança colaborativa, responsabilidade compartilhada e visão empreendedora. Na prática, o cooperativismo oferece aos jovens uma vivência concreta de participação econômica e social.
Essa característica ganha força em um tempo marcado por debates sobre sustentabilidade, inclusão, uso consciente da tecnologia e novas formas de construir riqueza. As novas gerações demonstram interesse crescente por modelos econômicos menos individualistas e mais colaborativos. E o cooperativismo, por natureza, atua nessa direção.
Ao distribuir resultados entre os cooperados, oferecer condições competitivas e manter foco no desenvolvimento coletivo, as cooperativas financeiras apresentam uma alternativa concreta para jovens que buscam serviços digitais, mas também desejam relações mais justas com o sistema financeiro.
Segurança digital exige novos hábitos
O avanço dos canais digitais, no entanto, exige atenção permanente. Segundo Paulo Dias, muitos ataques ainda exploram hábitos cotidianos dos usuários, como clicar em links recebidos por mensagens, usar a mesma senha em várias plataformas e expor informações pessoais em excesso nas redes sociais.
“A pressa continua sendo uma das maiores aliadas dos golpistas. Muitas pessoas acabam agindo no automático diante de mensagens que transmitem urgência ou preocupação, sem verificar a autenticidade da informação”, destaca.
Entre as medidas recomendadas para reduzir riscos estão a ativação da autenticação em dois fatores, o uso de cartões virtuais em compras online, a redução dos limites de transferência via Pix e a checagem direta com os canais oficiais da instituição financeira em caso de ligações suspeitas.
“Não é necessário ser especialista em tecnologia para se proteger. Pequenos hábitos fazem muita diferença. Sempre que receber uma ligação supostamente do banco, por exemplo, o ideal é desligar e entrar em contato diretamente pelos canais oficiais da instituição”, orienta Paulo Dias.
Para ele, compartilhar informações sobre tentativas de fraude também é uma forma de proteção coletiva. Muitas vítimas sentem vergonha de relatar o ocorrido, mas qualquer pessoa pode ser alvo de um golpe. Ao dividir experiências, o cooperado ajuda familiares, amigos e outros integrantes da comunidade a reconhecer riscos semelhantes.
Cooperativismo digital não perde a dimensão humana
A transformação digital das cooperativas financeiras não significa afastamento do cooperado. Ao contrário, quando bem conduzida, ela amplia o acesso, melhora a experiência e fortalece o relacionamento.
Cooperativas como a Cooperemb, uma das maiores cooperativas de crédito do Vale do Paraíba e do Estado de São Paulo, mostram essa combinação entre presença territorial e atendimento digital. Com mais de 45 mil cooperados, 18 postos de atendimento e um Núcleo de Atendimento Digital, a instituição oferece serviços como investimentos, previdência privada, consórcios e seguros.
Esse modelo híbrido pode ser decisivo para atrair e fidelizar os jovens cooperados. Afinal, as novas gerações querem resolver questões pelo celular, mas também valorizam orientação, confiança e pertencimento. No cooperativismo financeiro, o digital não substitui a relação humana. Ele amplia as possibilidades de participação.
Assim, o cooperativismo entra na era das novas gerações com uma proposta atual: unir tecnologia, educação financeira, segurança digital e construção coletiva. Para os jovens, isso representa mais do que uma forma de acessar produtos financeiros. Representa a possibilidade de fazer parte de um modelo no qual todos participam, todos aprendem e todos podem ganhar.


























