A agropecuária brasileira atravessa conjuntura que exige serenidade, visão de Estado e firmeza institucional. Custos elevados, queda nas commodities, crédito caro, retração de financiamentos, instabilidade geopolítica, restrições comerciais, insegurança regulatória e desastres climáticos mais frequentes comprimem a renda rural. Não se trata de dificuldade episódica: é uma tempestade perfeita sobre a atividade que sustenta a segurança alimentar, a balança comercial e o emprego no interior.
O produtor tem demonstrado competência técnica e capacidade de adaptação. Entretanto, nenhuma eficiência privada basta quando o ambiente econômico, climático e internacional se torna errático. A Selic, multiplicada em poucos anos, comprimiu margens e elevou o custo do capital. A queda das cotações reduziu receitas. Guerras limitaram insumos. Mercados relevantes ergueram barreiras. Acordos comerciais tardam e, quando avançam, encontram obstáculos. Mudanças tributárias e trabalhistas ocorrem quando o campo precisa de previsibilidade para investir e incorporar tecnologia.
Nesse quadro, é improdutivo converter a angústia do setor em disputa sobre culpados. A pergunta correta é como estabilizar uma atividade estratégica antes que a descapitalização se transforme em perda estrutural de produção. O socorro aos produtores endividados, aprovado no Senado e ainda dependente de efetivação pelo governo, é necessário, mas não pode comprometer o Plano Safra nem substituir políticas permanentes de mitigação de risco.
O alerta climático torna essa reflexão mais urgente. As projeções para o El Niño 2026/2027 indicam aquecimento das águas do Pacífico Equatorial e possibilidade de intensidade de moderada a forte, sobre um planeta já mais quente. No Brasil, os efeitos tendem a ser assimétricos: no Sul, cresce o risco de chuvas volumosas, temporais e inundações; no Norte e no Nordeste, podem ocorrer secas severas, queda no nível de rios e reservatórios e queimadas; no Centro-Oeste, estiagens prolongadas e calor extremo ameaçam a produtividade.
Por isso, o seguro rural deve ser tratado como política pública essencial, não como despesa acessória sujeita a cortes recorrentes. Um seguro robusto e previsível reduz perdas, preserva renda, sustenta o crédito, evita colapsos regionais e diminui a necessidade de socorros emergenciais mais caros. Contingenciar o já insuficiente orçamento do seguro rural às vésperas de uma safra ameaçada por eventos extremos é caminhar na direção oposta da racionalidade econômica. A subvenção ao prêmio protege a produção, o consumidor, a arrecadação, o comércio exterior e a estabilidade social do interior.
A agricultura não pede privilégio; requer condições mínimas para continuar produzindo com eficiência, responsabilidade e compromisso com o Brasil. O momento exige coordenação entre governo, Congresso, sistema financeiro, seguradoras, cooperativas, pesquisa agropecuária e defesa civil. Monitoramento climático em tempo real, crédito compatível com o risco, abertura de mercados, segurança jurídica e fortalecimento do seguro rural devem compor agenda objetiva.
O campo não pode ser deixado sozinho diante de choques climáticos, financeiros e comerciais de magnitude crescente. Defender o produtor é defender o alimento, a economia municipal, a soberania nacional e a paz social.



























