O desenvolvimento sustentável na Amazônia é prejudicado pelo desmatamento. Grupos como a Cooperativa Mista de Desenvolvimento Sustentável e Economia Solidária da Reserva Extrativista do Médio Juruá (CODAEMJ) é um dos típicos grupos de famílias adaptadas ao meio e que vivem da mata. Porém, o avanço do desmatamento é visto com preocupação.
A cooperativa foi criada em 2003 por extrativistas da região do médio Juruá. Hoje são 380 famílias cooperadas. As mulheres são 60%. De acordo com sua página no Instagram, a CODAEMJ integra também famílias do Território Indígena Deni do Rio Xeruã.assim, o número sobre para 450 famílias distribuídas em 56 comunidades nas Reservas de Desenvolvimento Sustentável de Uacari e Reserva Extrativista do Médio Juruá, seus entorno e comunidades de área reconhecida como acordo de pesca, localizadas no município de Carauari no Estado do Amazonas.
O grupo recebeu apoio da Universidade Federal do Amazonas. A atividade socioeconômica garante sobretudo o complemento de renda e subsistência de muitos lares ribeirinhos.
Desenvolvimento sustentável sob ameaça
Em artigo intitulado “Um legado de 12 mil anos: saberes críticos das populações indígenas amazônicas para o bem viver” publicado no Nexo Políticas Públicas e na Agência Bori, pelo arqueólogo Eduardo Góes Neves, pela antropóloga ambiental Simone Athayde e pelo professor e escritor André Baniwa alerta para a possibilidade de perda de todo o conhecimento desenvolvido pelas populações nativas.
Nos últimos 40 anos, estima-se que cerca de um quinto da Amazônia brasileira foi perdido para o desmatamento incontrolado, em um processo violento que gerou perdas irreparáveis nos ecossistemas que a compõem, bem como impactos dramáticos nos territórios e modos de vida de povos indígenas e comunidades locais. Tal destruição gerou pouca riqueza: do total impactado, menos de 20% tem uso eficiente e produtivo e 80% estão cobertos por pastagens degradadas ou de baixa produtividade e áreas abandonadas.
Esses números são ainda mais dramáticos quando se comparam as perdas dos últimos anos com a longa história de ocupação indígena e ribeirinha da Amazônia. Se as últimas décadas foram de destruição, os milênios de história indígena que antecederam a chegada dos europeus foram caracterizados pela transformação da natureza em um rico patrimônio biocultural. Esta transformação ocorreu com baixíssimo impacto sobre a floresta. De 1990 a 2020, enquanto as áreas privadas perderam 20,6% da vegetação nativa, territórios indígenas mantiveram 99% de sua floresta em pé, tornando-se uma barreira eficaz contra o desmatamento na Amazônia “, diz o artigo.
Milênios de história
Ainda de acordo com os pesquisadores, povos da Amazônia atuam na região há pelo menos 12 mil anos.
Tão intensa é a relação que os povos da floresta estabeleceram com as plantas ao longo de milênios de ocupação e manejo dos ecossistemas Amazônicos, que a própria composição atual das florestas foi modificada.
Até o momento, 10 mil espécies de árvores na Amazônia foram descritas pelos cientistas, mas apenas 227 dessas espécies correspondem a quase metade de todas as árvores (Ter Steege et al. 2013). Conhecidas como “hiperdominantes”, tais espécies incluem plantas de grande importância econômica e simbólica como o açaí, paxiúba, seringueira, cacau etc.
Evidências arqueológicas mostram que algumas dessas árvores são cultivadas e manejadas há milhares de anos, o que permite que se afirme que tais práticas históricas, repetidas ao longo de gerações, contribuíram para criar o padrão de hiperdominância contemporâneo (Levis et al. 2017). Desse modo, é impossível na Amazônia separar-se o patrimônio natural do patrimônio cultural.
A grande Amazônia – entendida aqui como a bacia Amazônica, as Guianas e a bacia do alto rio Orinoco – e os ecossistemas que a compõem são um patrimônio biocultural único que resulta da interação dos povos da floresta com meio ambiente ao longo do tempo profundo, anterior à invasão e colonização por povos europeus. Hoje, este patrimônio é, em parte, resguardado dentro de áreas protegidas, terras indígenas, territórios quilombolas e outros territórios especialmente protegidos, embora haja restrições a sua ocupação em alguns tipos de unidade de conservação, como parques nacionais e reservas biológicas. Por esta razão, não deve existir uma contradição entre o estabelecimento de terras protegidas e a presença de populações tradicionais – indígenas, quilombolas, beiradeiras – nesses locais. Ao contrário, é a própria presença desses povos que pode assegurar a reprodução dos ambientes que se quer proteger.
As terras pretas e o desenvolvimento sustentável
Existem outras evidências de transformação da natureza pelos povos indígenas no passado. As terras pretas que têm sua origem associada ao manejo de restos orgânicos por povos indígenas do passado são solos muito férteis e bastante produtivos. Presentes em diferentes partes da Amazônia, começaram a se formar há cerca de 5.500 anos e se tornaram disseminados a partir de cerca de 2.000 anos. Terras pretas são hoje um recurso econômico importante, que cobre de 1 a 3% da Amazônia, as quais são utilizadas para o cultivo por diferentes populações humanas da Amazônia .
A arqueologia mostra também que os povos do passado viveram às vezes em aldeias tão grandes que poderiam ser chamadas de cidades. Esses locais estão associados à abertura de estradas pelas áreas de mata em extensões ainda não totalmente conhecidas. Os dados obtidos até o momento, no alto Xingu e no Acre no Brasil, mostram que ao longo dessas estradas ocorreu um processo de cultivo da floresta no qual algumas espécies de árvores, como bambus, foram substituídas por outras, como palmeiras. Trata-se, uma vez mais, de práticas de construir a vida na floresta diametralmente opostas às que se instalam no presente, quando a imensa biodiversidade das florestas é substituída pelo desmatamento, reduzindo a rica biodiversidade Amazônica a um número pequeno de espécies de plantas e animais não nativos.
Os sofisticados sistemas de conhecimento dos povos indígenas (bem como de outras populações locais, como comunidades quilombolas, ribeirinhas e beiradeiras) e os dados emergentes da arqueologia e dos sistemas de informações geográficas nos ensinam que a vida na Amazônia deve estar ligada à produção da diversidade e ao manejo da abundância, lições fundamentais para que esse riquíssimo patrimônio biocultural não seja irremediavelmente perdido.
Por outro lado, grupos como CODAEMJ equilibram dos recursos da floresta e garantem a terra e os povos tradicionais.




























