A safra de arroz 2025/26 começa sob um sinal de alerta para os cooperativistas do setor agrícola. Apesar das ações do Governo Federal para apoiar a comercialização, os preços do grão seguem pressionados, comprometendo a rentabilidade dos produtores e levando a uma retração significativa da área plantada nos principais estados produtores. Mas, afinal, por que o arroz continua barato mesmo com os instrumentos de apoio em operação?
Excedente produtivo ainda dita o mercado do arroz
De acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o principal fator por trás da queda dos preços é o elevado excedente produtivo deixado pela safra 2024/25. O volume expressivo de arroz ainda disponível no mercado interno impede a recuperação das cotações, funcionando como uma represa cheia demais: enquanto não houver escoamento relevante, o nível — ou, nesse caso, o preço — dificilmente sobe.
Para a safra 2025/26, a Conab estima uma produção de 11,465 milhões de toneladas, o que representa uma queda de 10,13% em relação ao ciclo anterior. A área plantada deve recuar 5,63%, totalizando 1,665 milhão de hectares, enquanto a produtividade média está projetada em 6.887 kg/ha, com redução de 4,77%. Ainda assim, mesmo com esses recuos, o estoque remanescente segue elevado o suficiente para manter os preços sob pressão.
A visão das lideranças do setor
Em Santa Catarina, um dos principais polos de cultivo do país, o presidente do SindArroz-SC, Walmir Rampinelli, é direto ao diagnosticar o problema. Segundo ele, o grande volume de grãos disponíveis limita qualquer possibilidade de valorização no curto prazo. Diante disso, indústrias e cooperativas precisam adotar uma postura cautelosa, priorizando redução de custos, eficiência operacional e estratégias de gestão mais rigorosas.
Esse cenário atinge em cheio o cooperativista, que vê sua margem encolher justamente quando precisa de fôlego financeiro para planejar o próximo ciclo produtivo.
O papel do PEP, PEPRO e AGF: o que são e como funcionam?
Para mitigar os efeitos da queda de preços, o governo brasileiro, por meio da Conab, utiliza três instrumentos clássicos de política agrícola:
- PEP (Prêmio para Escoamento de Produto): mecanismo que subsidia o escoamento do arroz de regiões com excesso de oferta para áreas deficitárias ou para exportação. O governo paga um prêmio a quem comprovar a compra do produto pelo preço mínimo e seu devido transporte.
- PEPRO (Prêmio Equalizador Pago ao Produtor Rural): semelhante ao PEP, mas o prêmio é pago diretamente ao produtor ou à cooperativa, garantindo que ele receba, no mínimo, o preço estabelecido pela política agrícola, mesmo que o mercado esteja pagando menos.
- AGF (Aquisição do Governo Federal): instrumento pelo qual o governo compra diretamente o arroz pelo preço mínimo, formando estoques públicos. Essa retirada do produto do mercado ajuda a reduzir a oferta disponível e sustentar os preços.
Esses mecanismos funcionam como uma rede de proteção, garantindo renda mínima ao produtor e assegurando o abastecimento nacional. No entanto, quando o excedente é muito elevado, como ocorre atualmente, seu efeito tende a ser limitado no curto prazo.
Menos área hoje, possível alívio amanhã
A perspectiva de melhora nos preços, segundo Rampinelli, está mais associada ao futuro do que ao presente. A descapitalização dos produtores deve resultar em um plantio ainda menor na safra 2026/27. Muitos agricultores chegarão ao próximo ciclo sem recursos suficientes para investir, provocando uma retração mais acentuada da área cultivada.
Esse movimento pode funcionar como um ajuste natural do mercado. Com menos arroz sendo produzido, a oferta tende a se alinhar melhor à demanda, abrindo espaço para uma valorização gradual dos preços para o produtor a partir do fim de 2026.
O desafio cooperativista
Para as cooperativas de produtores de arroz, o momento exige planejamento estratégico, união e diálogo constante com as políticas públicas. Assim como em uma engrenagem tem que estar alinhada para que o sistema volte ao equilíbrio.
A pergunta que fica é: como atravessar esse período de preços baixos sem comprometer a sustentabilidade do produtor cooperado? A resposta passa, necessariamente, por eficiência, organização coletiva e uso inteligente dos instrumentos disponíveis, enquanto o mercado busca um novo ponto de equilíbrio.




























