Inovação no cooperativismo é uma tendência. Guilherme Souza Costa, gerente do Núcleo de Inteligência e Inovação do Sistema OCB, deixou isso bem claro durante palestra no Rio Web Summit 2026, no estande da OCB/RJ. Ele abordou as iniciativas da organização para fortalecer a cultura de inovação nas cooperativas brasileiras.
A presença do Sistema OCB em um evento de tecnologia tem relevância. Hoje, o cooperativismo brasileiro reúne mais de 25 milhões de cooperados. O número revela a força econômica e social de um modelo baseado na associação de pessoas em torno de objetivos comuns. No entanto, o setor também precisa lidar com um cenário mais complexo: a população brasileira envelhece rapidamente, as relações de trabalho mudam e parte dos profissionais adultos carrega lacunas educacionais acumuladas ao longo de décadas.
Esse conjunto de fatores impõe uma pergunta estratégica: como preparar cooperativas e cooperados para inovar em um país que passa por mudanças demográficas, tecnológicas e educacionais ao mesmo tempo?
Envelhecimento da população muda o empreendedorismo
Um dos pontos destacados por Guilherme Souza Costa foi o impacto do envelhecimento da população brasileira no atual ambiente empreendedor. O fenômeno não diz respeito apenas à previdência, à saúde ou ao consumo. Ele também altera o mundo do trabalho, a formação de lideranças, a sucessão nos negócios e a capacidade de adaptação profissional.
Com uma população mais velha, o Brasil terá cada vez mais trabalhadores experientes convivendo com novas tecnologias, plataformas digitais, inteligência artificial, automação e modelos de gestão orientados por dados. Ao mesmo tempo, muitos profissionais que hoje estão na maturidade produtiva foram formados em um período marcado por menor acesso à tecnologia, desigualdade educacional e menor oferta de qualificação continuada.
Nesse contexto, a chamada Geração X — formada por pessoas nascidas, em geral, entre meados dos anos 1960 e o início dos anos 1980 — ocupa uma posição decisiva. Muitos desses profissionais estão em cargos de liderança, empreendem, administram negócios familiares ou participam da gestão de cooperativas. Porém, parte deles enfrenta uma desvantagem competitiva quando precisa se adaptar rapidamente a ferramentas digitais e novas linguagens de mercado.
A questão, portanto, não é etária. É estrutural. O problema não está na idade dos profissionais, mas na falta de políticas consistentes de educação continuada, capacitação tecnológica e atualização gerencial. Por isso, a inovação no cooperativismo precisa ser vista como cultura, e não apenas como compra de equipamentos ou adoção de softwares.
InovaCoop traduz tendências para a realidade das cooperativas
Na entrevista concedida a Claudio Rangel, Guilherme Souza Costa explicou que o InovaCoop foi desenvolvido para promover uma cultura de inovação no cooperativismo brasileiro.
“O nosso grande objetivo é justamente trazer informações sobre as tendências de inovação e traduzi-las para o cooperativismo, para a nossa linguagem e para o nosso modelo de governança”, afirmou.
A fala é importante porque o cooperativismo tem características próprias. Diferentemente de empresas tradicionais, uma cooperativa precisa considerar a participação dos associados, a governança democrática, o interesse coletivo e a sustentabilidade econômica da organização. Portanto, importar modelos de inovação sem adaptação pode gerar ruído, desperdício e baixa adesão interna.
Segundo Guilherme, o InovaCoop reúne uma vitrine de boas práticas, cursos, e-books e ferramentas para que as cooperativas conheçam experiências bem-sucedidas e possam aplicar metodologias de inovação em sua realidade.
“Lá dentro do InovaCoop, nós temos uma vitrine de boas práticas, onde você pode se inspirar com cases de cooperativas que já estão inovando. Tem também diversos cursos, e-books, onde você já pode sair do site pronto para aplicar algumas ferramentas de inovação na sua cooperativa”, explicou.
Na prática, a plataforma funciona como uma ponte entre tendências globais e necessidades locais. Ela ajuda cooperativas a entenderem temas como transformação digital, novos modelos de negócio, inovação aberta, relacionamento com startups, uso de dados e acesso a recursos para financiar projetos.
Acesso a recursos ainda é desafio para cooperativas
Um dos pontos mais sensíveis da inovação é o financiamento. Muitas cooperativas têm boas ideias, conhecem as dores dos cooperados e sabem onde precisam melhorar. Porém, frequentemente esbarram na dificuldade de estruturar projetos, encontrar editais adequados e competir por recursos.
Para enfrentar esse problema, o InovaCoop conta com o Radar de Financiamento, descrito por Guilherme como um BI que reúne oportunidades de editais de fomento e linhas de crédito específicas para inovação.
“Quando a gente fala da dor de acesso a recursos para investir em inovação, tem o Radar de Financiamento, que é um BI que congrega todas as oportunidades de editais de fomento e linhas de crédito específicas para a inovação do ecossistema de fomento no Brasil”, afirmou.
Com essa ferramenta, a cooperativa não precisa pesquisar separadamente em sites de órgãos de fomento, bancos públicos, agências de inovação ou instituições de financiamento. Ela pode filtrar oportunidades de acordo com seu perfil, área de atuação e capacidade de execução.
A medida economiza tempo e amplia as chances de acesso a recursos. Porém, Guilherme fez um alerta: o ambiente está mais favorável, mas as cooperativas precisam melhorar sua capacidade de escrever projetos competitivos.
“Precisa ter um desafio ainda muito grande de a gente conseguir escrever projetos para fazer essa captação, de você desenvolver grandes projetos dentro das cooperativas. Então precisa mesmo investir em gestão, em organização, em cultura de inovação para a gente ter projetos competitivos para competir nesses editais”, destacou.
Finep, FNDCT e BNDES entram no radar da inovação cooperativa
O momento é considerado favorável porque o Brasil retomou instrumentos importantes de financiamento à inovação. Entre eles estão recursos da Finep, do BNDES e do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, o FNDCT.
Para o cooperativismo, esse movimento é estratégico. A inclusão das cooperativas no debate sobre ciência, tecnologia e inovação amplia o potencial de desenvolvimento de soluções em áreas como agropecuária, crédito, saúde, transporte, infraestrutura, energia, reciclagem, educação e serviços.
No entanto, acessar esses recursos exige mais do que vontade. As cooperativas precisam transformar problemas concretos em projetos bem estruturados, com objetivos claros, metas mensuráveis, orçamento, governança, cronograma e capacidade de comprovar impacto.
Esse é um ponto central para o futuro do setor. Afinal, inovação não nasce apenas da tecnologia. Ela depende de gestão, planejamento, formação de pessoas e capacidade de execução.
Cooperativismo pode reduzir desvantagens profissionais
O envelhecimento populacional e as lacunas educacionais acumuladas ao longo do tempo criam um desafio nacional. Muitos profissionais têm experiência, conhecimento prático e capacidade de trabalho, mas precisam de apoio para se atualizar diante das novas exigências tecnológicas.
Nesse ponto, o cooperativismo pode exercer um papel relevante. Como modelo baseado na cooperação, ele permite compartilhar conhecimento, reduzir custos, organizar capacitações coletivas e criar ambientes de aprendizagem entre gerações.
Uma cooperativa pode, por exemplo, promover programas de qualificação digital para seus associados, criar núcleos de inovação, aproximar jovens talentos de lideranças experientes, buscar editais de fomento, desenvolver projetos com universidades e formar parcerias com startups.
Esse movimento pode ajudar a transformar uma possível desvantagem educacional em oportunidade de atualização coletiva. Ao invés de deixar cada profissional sozinho diante da transformação digital, a cooperativa cria uma estrutura comum de apoio.
Web Summit aproxima cooperativismo do ecossistema tecnológico
A presença do Sistema OCB/RJ no Web Summit Rio também tem valor simbólico. O evento reúne empresas globais, startups, investidores, lideranças públicas, especialistas em tecnologia e empreendedores. Estar nesse ambiente amplia a visibilidade do cooperativismo e ajuda a mostrar que o modelo não pertence apenas ao passado ou aos setores tradicionais da economia.
Para Guilherme Souza Costa, o Web Summit é uma oportunidade de conexão.
“Esse é o maior evento de tecnologia do Brasil e aqui a gente congrega diversos players, desde o serviço público ao mercado privado, a empresas globais que estão aqui expondo atualmente. Então é muito importante para o cooperativismo estar inserido em um ecossistema como esse”, afirmou.
Ele também destacou que a presença no evento pode aproximar pessoas que ainda não conhecem o modelo cooperativista.
“A gente está falando sobre cooperativismo para pessoas que talvez já ouviram falar ou pessoas que não conhecem o nosso modelo. É muito importante que a gente esteja marcando presença aqui, porque daqui podem surgir novas conexões, pessoas que vão empreender lá no futuro coletivamente e montar cooperativas ou pessoas que vão ficar fãs do cooperativismo e assim vão passar a consumir produtos e serviços de cooperativas”, completou.
Inovar é preparar o cooperativismo para o futuro
O debate levado ao Web Summit Rio mostra que o cooperativismo brasileiro vive uma fase decisiva. De um lado, o setor cresce em número de cooperados, presença territorial e relevância econômica. Por outro, precisa enfrentar desafios complexos, como envelhecimento da população, transformação digital, baixa qualificação em parte da força de trabalho, mudanças no consumo e aumento da concorrência.
A resposta passa por inovação, mas também por educação, governança e cooperação.
O InovaCoop, o Radar de Financiamento e as iniciativas do Sistema OCB indicam um caminho: oferecer informação, traduzir tendências, organizar boas práticas e aproximar as cooperativas das fontes de fomento. No entanto, o passo seguinte depende das próprias organizações cooperativas.
Será necessário formar lideranças, capacitar equipes, envolver cooperados, estruturar projetos e criar uma cultura permanente de aprendizagem. Afinal, em um país que envelhece, a inovação precisa ser inclusiva. Ela deve preparar jovens, adultos e profissionais experientes para participar da nova economia.
No cooperativismo, essa transformação tem uma vantagem: ela pode ser feita de forma coletiva.
FAQ
O InovaCoop é uma plataforma do Sistema OCB criada para fortalecer a cultura de inovação nas cooperativas brasileiras. Ela reúne conteúdos, cursos, e-books, ferramentas, boas práticas e informações sobre tendências aplicadas ao cooperativismo.
O Radar de Financiamento é uma ferramenta que reúne oportunidades de editais de fomento e linhas de crédito para projetos de inovação. Ele ajuda cooperativas a encontrar recursos adequados à sua realidade.
Porque uma população mais velha muda o perfil da força de trabalho, exige atualização profissional constante e amplia a necessidade de modelos de negócio que valorizem experiência, qualificação e adaptação tecnológica.
O cooperativismo pode reduzir custos, compartilhar conhecimento, promover capacitação coletiva e organizar projetos de inovação com impacto econômico e social para cooperados e comunidades.
Porque o Web Summit Rio reúne atores do ecossistema de tecnologia, inovação e empreendedorismo. A presença do cooperativismo nesse ambiente ajuda a ampliar conexões, atrair novos públicos e mostrar que cooperativas também são espaços de inovação.
Conheça o cooperativismo. Baixe a revista BR Coop




























