Iso 56001 nas cooperativas não significa apenas inovar e lançar um aplicativo, contratar inteligência artificial ou criar um novo produto. Para um número crescente de organizações, o desafio passou a ser outro: como transformar inovação em um processo permanente, mensurável e ligado à estratégia do negócio?
É nesse cenário que começa a ganhar espaço entre as cooperativas a ABNT NBR ISO 56001, norma voltada à implantação de sistemas de gestão da inovação.
A ISO 56001 foi publicada internacionalmente em setembro de 2024 e estabelece requisitos para criar, implementar, manter e melhorar continuamente um sistema de gestão da inovação. Segundo a International Organization for Standardization, a proposta é permitir que organizações de qualquer porte ou setor inovem de forma mais sistemática, reduzindo incertezas e aumentando a capacidade de gerar valor com novos produtos, serviços, processos e modelos de negócio.
No Brasil, a norma foi incorporada pela ABNT. A entidade informa que a versão brasileira estabelece uma estrutura auditável para organizar a inovação e conectar responsabilidades, oportunidades, riscos e avaliação de desempenho à estratégia institucional.
Da ideia isolada à gestão da inovação
A mudança parece simples, mas pode representar uma transformação importante.
Em muitas organizações, inovação ainda depende de iniciativas isoladas: um departamento cria um projeto, uma equipe experimenta determinada tecnologia ou a direção decide investir em uma solução considerada inovadora.
A ISO 56001 propõe algo diferente. A inovação passa a funcionar como um sistema de gestão, com objetivos, responsabilidades, processos, acompanhamento de resultados e melhoria contínua.
Isso significa que a pergunta deixa de ser apenas “qual será nossa próxima inovação?” e passa a incluir outras questões: quais problemas precisam ser resolvidos? Quem decide as prioridades? Quanto a organização pode investir? Como as ideias serão avaliadas? Quais resultados deverão ser medidos? O que acontece quando uma experiência não funciona?
Para as cooperativas, essa discussão ganha uma característica particular.
Cooperativismo já possui alguns ingredientes da inovação
Colaboração, participação, compartilhamento de conhecimento e construção coletiva de soluções fazem parte da própria lógica cooperativista.
Essas características encontram correspondência em uma norma que valoriza cultura organizacional, colaboração, aprendizagem e geração de valor.
Isso não significa, entretanto, que uma cooperativa seja inovadora simplesmente por ser cooperativa. O desafio está justamente em transformar essa capacidade de participação em processos estruturados de inovação.
Uma assembleia, por exemplo, é um poderoso instrumento democrático. Mas ideias apresentadas por cooperados precisam encontrar mecanismos que permitam analisá-las, testá-las, financiá-las e, quando viáveis, transformá-las em novos produtos ou serviços.
Da mesma forma, funcionários e dirigentes podem identificar oportunidades diariamente, mas sem um processo institucional essas ideias frequentemente se perdem.
É nesse espaço entre participação e execução que um sistema de gestão da inovação pode fazer diferença.
Credicom leva experiência para publicação sobre a norma
Um dos casos brasileiros apresentados no material sobre a aplicação da ABNT NBR ISO 56001 é o do Sicoob Credicom. A experiência da cooperativa financeira aborda a construção de cultura de inovação, participação das equipes e utilização da experimentação como parte da geração de valor.
A experiência é particularmente interessante porque mostra uma mudança de estágio. A tecnologia deixa de ser tratada como sinônimo de inovação. O foco passa para a capacidade da organização de identificar problemas, experimentar soluções e aprender com os resultados.
IA aumenta a importância da gestão
A discussão também chega em um momento de rápida adoção da inteligência artificial.
Ferramentas de IA generativa estão entrando em atendimento, análise de crédito, marketing, gestão de documentos, relacionamento com cooperados e processos administrativos.
Mas comprar uma tecnologia não significa possuir uma estratégia de inovação.
Uma cooperativa pode adotar dezenas de ferramentas digitais e, mesmo assim, manter processos fragmentados, investimentos sem indicadores e projetos desconectados de seus objetivos.
Por isso, normas como a ISO 56001 podem ganhar importância justamente na era da inteligência artificial: elas ajudam a estabelecer governança para decidir onde inovar, por que inovar e quais resultados esperar.
Intercooperação também pode impulsionar inovação
Há ainda outra possibilidade particularmente interessante para o cooperativismo.
O sexto princípio cooperativista — a intercooperação — pode ser utilizado não apenas em relações comerciais, mas também na inovação.
Cooperativas podem compartilhar laboratórios, pesquisas, metodologias, soluções tecnológicas e experiências. Uma inovação criada por uma cooperativa de crédito pode, por exemplo, gerar conhecimento útil para cooperativas de outros ramos. Projetos de saúde, energia, agro, transporte ou infraestrutura também podem envolver organizações de diferentes segmentos.
Nesse aspecto, a gestão estruturada da inovação pode favorecer a formação de ecossistemas cooperativos, reduzindo duplicidade de investimentos e ampliando a capacidade de desenvolvimento conjunto.
A própria ISO aponta o aumento da capacidade de colaboração como um dos benefícios esperados de um sistema estruturado de inovação.
Inovação precisa gerar valor para o cooperado
Para uma empresa convencional, inovação normalmente é associada ao aumento da competitividade, produtividade, faturamento ou participação de mercado.
Esses objetivos também são importantes para uma cooperativa. Mas existe uma diferença fundamental: o resultado precisa retornar ao associado.
Uma inovação bem-sucedida pode significar crédito mais acessível, redução dos custos de produção, atendimento médico mais eficiente, melhores condições de transporte, novos mercados para produtores ou aumento da produtividade.
Essa talvez seja a principal oportunidade oferecida pela profissionalização da gestão da inovação no cooperativismo.
Mais do que produzir novidades, a cooperativa pode estabelecer um processo capaz de responder continuamente a uma pergunta essencial:
como inovar para gerar mais valor para o cooperado e para a comunidade?
A ISO 56001 não fornece a resposta. Mas pode ajudar as cooperativas a construir método, governança e indicadores para encontrá-la.
AEO — perguntas que podem entrar no final
O que é a ISO 56001?
É uma norma internacional que estabelece requisitos para implantação e melhoria de sistemas de gestão da inovação nas organizações.
A ISO 56001 pode ser aplicada a cooperativas?
Sim. A norma é aplicável a organizações de qualquer porte e setor, e princípios como colaboração e participação tornam o tema particularmente relevante para cooperativas.
Qual a diferença entre tecnologia e gestão da inovação?
Tecnologia pode ser uma ferramenta de inovação. Gestão da inovação organiza estratégia, pessoas, processos, oportunidades, riscos e indicadores para que inovar deixe de depender de iniciativas isoladas.
Por que a ISO 56001 interessa ao cooperativismo?
Porque pode ajudar a transformar a participação de cooperados e equipes em processos estruturados para desenvolver e testar soluções que gerem valor econômico e social.


























