O cooperativismo brasileiro cresce em número de associados, presença territorial e relevância econômica. Esse avanço, entretanto, traz um desafio para as organizações: garantir que os novos cooperados compreendam seus direitos, deveres e responsabilidades e participem efetivamente das decisões. Ou seja, como fuciona o sistema.
Um diagnóstico apresentado pelo Sistema OCB durante a Semana de Competitividade 2026 revela fragilidades no processo de acolhimento. Em consulta realizada com participantes do evento, somente 18% das cooperativas responderam possuir um programa estruturado e contínuo de integração dos novos associados.
O resultado ganha importância diante do crescimento acelerado da base cooperativista. O Brasil passou de 15,5 milhões de cooperados em 2019 para 29 milhões em 2025. Na média, aproximadamente 6,1 mil pessoas ingressaram diariamente em uma cooperativa ao longo desse período.
“Esses 6 mil novos cooperados todos os dias sabem que são cooperados? Eles sabem seus deveres, responsabilidades, direitos, o seu papel?”, questionou Fabíola Nader Motta, gerente-geral do Sistema OCB, durante a apresentação do estudo.
Pesquisa ouviu quase 10 mil pessoas
O levantamento é apresentado pelo Sistema OCB como o primeiro diagnóstico nacional sobre a maturidade da cultura cooperativista.
A pesquisa quantitativa ouviu 9.761 cooperados, empregados, dirigentes e conselheiros de diferentes regiões do país. A etapa qualitativa reuniu 46 entrevistas em profundidade, realizadas em 37 cooperativas distribuídas pelos 26 estados e pelo Distrito Federal.
O objetivo é identificar como os princípios cooperativistas aparecem na gestão, na comunicação, na participação dos associados e na preparação de novos líderes.
Os percentuais de 18% sobre programas de integração e de 17% sobre o uso da memória institucional foram obtidos em uma consulta aos participantes da Semana de Competitividade. Portanto, não devem ser interpretados isoladamente como um censo de todas as cooperativas brasileiras. Ainda assim, funcionam como um sinal de alerta para o setor.
Integração precisa ir além do cadastro
A entrada em uma cooperativa não deveria se limitar à assinatura de documentos, abertura de conta ou início de uma relação comercial.
O novo associado precisa compreender que também é proprietário do empreendimento. Isso envolve conhecer o estatuto, os canais de participação, o funcionamento das assembleias, a formação das sobras, as responsabilidades econômicas e o papel dos conselhos.
Quando esse processo não ocorre, cresce o risco de o cooperado enxergar a organização apenas como fornecedora de crédito, compradora da produção, contratante de serviços ou operadora de benefícios.
Essa percepção reduz a diferença entre uma cooperativa e uma empresa convencional. Também pode enfraquecer a participação nas assembleias, a renovação das lideranças e o controle democrático da organização.
Distância pode comprometer a governança
O aumento do número de associados não garante, por si só, maior participação. Ao contrário: quanto mais rapidamente a base cresce, maior é a necessidade de criar canais permanentes de formação e comunicação.
A falta de integração pode produzir uma base numerosa, mas pouco envolvida nas decisões. Entre os efeitos possíveis estão baixa presença em assembleias, desconhecimento das regras internas, dificuldade para formar novos dirigentes e concentração das decisões em grupos reduzidos.
O diagnóstico reforça uma preocupação que já aparecia na Pesquisa Nacional do Cooperativismo de 2023. Naquele levantamento, 65% das lideranças apontaram o fortalecimento da cultura cooperativista como prioridade para o futuro.
A questão é especialmente sensível para cooperativas de crédito, agropecuárias, de saúde e de transporte, que ampliaram suas áreas de atuação, digitalizaram serviços e incorporaram associados que nem sempre mantêm contato presencial com a organização.
Memória institucional ainda é pouco aproveitada
Outro resultado da consulta realizada durante o evento mostra que apenas 17% das cooperativas participantes utilizam a própria história de maneira estruturada para fortalecer sua identidade.
A memória institucional pode ajudar a explicar por que a cooperativa foi criada, quais problemas coletivos buscou resolver e como a participação dos associados contribuiu para seu desenvolvimento.
Preservar essa trajetória não significa apenas organizar arquivos ou celebrar aniversários. Significa transformar a história em ferramenta de educação, pertencimento e preparação de novas lideranças.
Sem essa conexão, os novos cooperados podem receber informações sobre produtos e serviços, mas continuar sem compreender o propósito coletivo da organização.
O que as cooperativas podem fazer
O diagnóstico oferece elementos para que cada cooperativa avalie a qualidade da relação com seus associados. Algumas medidas possíveis incluem:
- instituir programas obrigatórios de integração;
- criar trilhas de formação presenciais e digitais;
- explicar de forma simples o estatuto, os direitos e os deveres;
- apresentar os resultados econômicos e sociais da cooperativa;
- formar cooperados multiplicadores ou mentores;
- medir a presença e a diversidade nas assembleias;
- recuperar a história da organização e de seus fundadores;
- criar programas de preparação de conselheiros e dirigentes;
- manter canais permanentes de escuta e prestação de contas.
O desafio não é apenas oferecer mais informações. É criar oportunidades para que o associado participe, apresente propostas, acompanhe os resultados e perceba sua influência sobre os rumos do empreendimento.
Crescer sem perder a identidade
Os dados mostram que o cooperativismo brasileiro alcançou uma escala inédita. Segundo o AnuárioCoop 2026, o país encerrou 2025 com 29 milhões de cooperados, 4,4 mil cooperativas e presença em 3.425 municípios.
A expansão fortalece a capacidade econômica do setor, mas também aumenta o risco de distanciamento entre a organização e sua base social.
A integração dos associados torna-se, portanto, uma questão de governança e sustentabilidade. Uma cooperativa pode crescer em ativos, receitas e número de unidades, mas depende da participação consciente dos cooperados para preservar sua identidade.
O estudo do Sistema OCB coloca uma pergunta central para o futuro do movimento: as cooperativas estão apenas conquistando novos associados ou também formando novos cooperativistas?
Fontes: Sistema OCB — pesquisa sobre cultura cooperativista e AnuárioCoop 2026.


























