O Conselho Nacional do Café (CNC) intensificou a análise da proposta de revisão da Classificação Oficial Brasileira do café beneficiado em grão cru, conhecida como “Nova COB”. A entidade defende que as mudanças considerem os impactos econômicos sobre os produtores, a capacidade operacional das cooperativas e as práticas adotadas na comercialização dos cafés brasileiros.
A proposta está em discussão no Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) e ainda não representa uma exigência em vigor. O trabalho pretende atualizar a Instrução Normativa Mapa nº 8, de 11 de junho de 2003, que estabelece os critérios oficiais para classificação do produto.
O CNC acompanha a revisão desde 2020, participa de reuniões com a área técnica do Ministério e reúne contribuições das cooperativas. Segundo a entidade, a atualização precisa incorporar avanços científicos e aproximar a norma das práticas do mercado, mas sem criar custos desproporcionais ou restringir a comercialização de cafés próprios para o consumo.
Estudos reuniram 461 amostras de café
A preparação da proposta envolveu cerca de cinco anos de coleta de amostras, análises científicas, avaliações estatísticas e debates sobre os parâmetros utilizados na classificação.
Participaram dos estudos auditores fiscais federais agropecuários, pesquisadores e especialistas, com apoio da Universidade Federal de Lavras (UFLA) e do Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná — Iapar-Emater (IDR-Paraná).
O levantamento apresentado pelo Mapa reuniu 461 amostras. Desse total, 149 vieram de diferentes estados produtores de café arábica e canéfora, enquanto 312 foram classificadas pela Cooperativa Regional de Cafeicultores em Guaxupé (Cooxupé). As cooperativas ligadas ao CNC contribuíram com o fornecimento de amostras.
Representantes dos produtores também participaram por meio da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e de sindicatos rurais.
Em 7 de maio de 2026, o CNC participou de um workshop promovido pelo Mapa, em Brasília, para apresentação e discussão da proposta. O encontro reuniu cooperativas e representantes de diferentes segmentos da cadeia produtiva do café.
Nova metodologia usaria percentual em massa
Uma das principais mudanças em estudo está na classificação física do café. Atualmente, o enquadramento por tipo utiliza a contagem por equivalência de defeitos. A proposta substitui esse método pela apuração do percentual de defeitos em massa.
A alteração aproxima a classificação oficial do sistema conhecido no mercado como percentual de “catação”, usado em operações de recebimento e comercialização.
A nova metodologia poderá simplificar procedimentos, mas o CNC avalia que seus efeitos precisam ser examinados antes da adoção. Entre os pontos estão o tempo necessário para classificar grandes volumes durante a safra, a capacidade das equipes, a padronização dos lotes e a correspondência entre os enquadramentos atuais e os propostos.
As cooperativas também querem compreender os possíveis reflexos da mudança sobre contratos, formação de preços e remuneração dos produtores.
Proposta diferencia defeitos graves e não graves
Outro ponto da revisão é a diferenciação entre defeitos graves e não graves. O objetivo é ampliar as possibilidades de enquadramento legal de cafés que apresentam alterações físicas, mas não são necessariamente impróprios para o consumo.
Pela norma atual, o café que ultrapassa 360 defeitos equivalentes em uma amostra de 300 gramas é classificado como Fora de Tipo. Nessa condição, o produto não deveria ser comercializado da forma como se apresenta.
A proposta considera como não graves defeitos como grãos quebrados, verdes, chochos ou mal granados. Essa diferenciação poderá permitir que uma parcela maior da produção seja enquadrada nos padrões legais, desde que respeitados os limites e as condições sanitárias previstos na futura regulamentação.
Para o CNC, defeitos físicos, qualidade comercial e segurança alimentar precisam ser tratados de forma distinta. A entidade defende que qualquer impedimento ao uso do café para consumo humano tenha fundamentação científica e critérios objetivos.
Mudanças podem afetar renda do cafeicultor
A revisão ganha importância principalmente em safras atingidas por secas, chuvas excessivas, temperaturas elevadas ou outros eventos climáticos capazes de comprometer a qualidade dos grãos.
Nessas situações, o cafeicultor já enfrenta perda de produtividade ou redução do valor comercial do produto. Por isso, regras mais restritivas, caso não estejam apoiadas em evidências técnicas, podem ampliar o prejuízo e retirar do mercado cafés que continuam aptos ao consumo.
Ao mesmo tempo, o CNC destaca que a atualização deve preservar a segurança dos consumidores. O desafio é estabelecer limites que permitam aproveitar comercialmente o produto adequado, sem admitir cafés que apresentem problemas sanitários.
Também deverão ser avaliadas as possibilidades de rebeneficiamento dos lotes e as destinações permitidas para cafés que não alcancem determinados padrões.
Cooperativas avaliarão custos da adaptação
As cooperativas ocupam uma posição estratégica nesse debate porque atuam no recebimento, na armazenagem, no beneficiamento, no rebeneficiamento, na comercialização e na exportação do café. Algumas também mantêm operações industriais.
Essa presença em diferentes etapas permite identificar consequências que não aparecem quando a análise se limita à classificação de uma amostra.
O CNC pretende levantar informações sobre tempo de execução, custos dos procedimentos, necessidade de capacitação das equipes, adaptação de estruturas, formação dos lotes e possíveis efeitos sobre os preços.
A participação de cooperativas de diferentes portes e regiões deverá ampliar a representatividade do estudo. Os resultados poderão subsidiar ajustes na proposta e ajudar na definição de um período de transição, caso a nova classificação seja aprovada.
Grupo técnico aprofundará análise da Nova COB
O CNC mantém diálogo com o Departamento de Inspeção de Produtos de Origem Vegetal (Dipov), setor do Mapa responsável pela revisão. A entidade também pretende organizar um grupo de estudo com representantes de cooperativas e especialistas.
O grupo deverá analisar os pontos críticos da proposta, consolidar dados econômicos e operacionais e formular contribuições para as próximas etapas do processo.
Para o Conselho, a atualização da classificação oficial precisa atender à diversidade da cafeicultura brasileira, incluindo cafés arábica e canéfora, comerciais e especiais. Além disso, deve oferecer previsibilidade ao setor, condições adequadas de transição e proteção à renda dos produtores.























