O cooperativismo conquistou espaço na memória dos brasileiros, mas ainda enfrenta o desafio de transformar reconhecimento em compreensão e preferência de compra. Essa é uma das leituras da Pesquisa de Imagem do Cooperativismo 2026, cujos resultados o Sistema OCB apresentou em uma transmissão pelo YouTube, em 23 de setembro, com a participação de Samara Araujo, gerente de Comunicação e Marketing, e Fabíola Nader Motta, superintendente da organização.
O levantamento mostra que 67% dos entrevistados conseguem citar espontaneamente o nome de uma cooperativa, ante 55% em 2023 e 29% em 2018. O crescimento de 38 pontos percentuais em oito anos revela maior presença dessas organizações no cotidiano da população. Entretanto, apenas 42,7% dizem saber diferenciar cooperativas de outros modelos de organização.
A pesquisa ouviu 5.955 pessoas de todas as regiões brasileiras, entre 29 de julho e 19 de agosto. O infográfico informa margem de erro geral de 1,2 ponto percentual. Os resultados oferecem elementos para orientar a comunicação do setor e identificar públicos que ainda conhecem pouco suas características.
Na avaliação de Fabíola, publicada pelo Sistema OCB, o levantamento mostra que a sociedade reconhece aspectos centrais do cooperativismo, mas também indica a necessidade de comunicar melhor sua capacidade de inovar e competir. Samara destaca que as diferenças entre os públicos ajudam a direcionar ações de aproximação e a explicar o modelo conforme cada realidade.
Lembrança das marcas avança mais que a compreensão
O aumento da lembrança espontânea representa um dos principais resultados positivos. Contudo, reconhecer um nome não significa compreender como uma cooperativa funciona.
Além dos 42,7% que afirmam saber distinguir o modelo, 58,1% acertam sua descrição e 47,9% identificam cooperativas reais. O Índice de Conhecimento Efetivo do Cooperativismo, que reúne quatro medidas, alcançou 51,4%.
Esse indicador exige uma leitura cuidadosa: ele corresponde à média das medidas utilizadas, com pesos iguais. Portanto, não significa que 51,4% dos entrevistados dominem todas as características avaliadas.
Os números sugerem espaço para uma comunicação que explique, com situações do cotidiano, como os associados participam das decisões, quais são seus direitos e responsabilidades e como os resultados econômicos retornam ao quadro social.
A lembrança também se concentra em grandes marcas. Sicredi e Sicoob somaram 4.779 das 8.848 menções registradas, aproximadamente 54% do total. Com a Unimed, as três representam cerca de 65,7% das citações.
Essa concentração evidencia a força das marcas líderes e abre uma questão para o movimento: como ampliar a visibilidade de cooperativas de outros segmentos e de menor porte? Os percentuais representam menções, e não a proporção de entrevistados que citaram cada conjunto de marcas.
Identidade comunitária se destaca, mas competitividade aparece menos
A pesquisa mostra que 81,6% dos participantes classificam o cooperativismo como atual, moderno ou inovador. O resultado favorece a imagem do modelo, embora reúna percepções diferentes: 44,3% o consideram atual, 20,8% moderno e 16,5% inovador.
Na comparação entre modelos de organização, as cooperativas se destacam pela colaboração e união de membros, com 33%, e pela distribuição de renda, com 20%. Também aparecem associadas à responsabilidade comunitária, com 27%, e à prosperidade para a comunidade, com 21%.
Por outro lado, atributos ligados ao desempenho empresarial têm presença menor. Apenas 10% associam cooperativas à competitividade, 8% à inovação e 4% à agilidade. Na categoria “empresas privadas”, a competitividade recebe 39% das menções. Já as startups alcançam 42% em inovação.
Esses resultados medem associações de imagem, não a eficiência real das organizações. Ainda assim, indicam um desafio: tornar mais visíveis as tecnologias, a qualidade dos serviços e os resultados econômicos das cooperativas.
Aliás, o fato de os pesquisados reconhecerem a contribuição comunitária das cooperativas oferece uma base favorável. Para ampliar sua presença no mercado, porém, o setor também precisa demonstrar como essa identidade se traduz em benefícios concretos para quem compra, contrata ou se associa.
Origem cooperativa pode influenciar a compra, mas há indecisão
Um dos destaques do levantamento é o percentual de 60,7% dos entrevistados que admitem que são capazes de mudar sua intenção de compra ao saber que um produto ou serviço tem como origem uma cooperativa.
Entretanto, este dado reúne dois grupos: 26,5% responderam “sim” e 34,2% disseram “talvez”. Ainda há outros 39,3% afirmaram que essa informação não mudaria sua intenção.
Assim, o resultado sinaliza uma oportunidade de aproximação, mas não representa preferência consolidada. A parcela indecisa supera aquela que afirma que mudaria sua escolha.
Da mesma forma, responder “não” não significa rejeitar cooperativas. O consumidor pode já adquirir seus produtos ou simplesmente considerar outros critérios mais relevantes.
Qualidade e preço lideram os fatores declarados de decisão de compra, com 60,5% e 53%, respectivamente. Responsabilidade social aparece com 16,4%, enquanto responsabilidade comunitária recebe 14,1%.
Para Fabíola, conforme a divulgação oficial, existe espaço para valorizar a origem cooperativa quando ela vem acompanhada de qualidade e competitividade.
A leitura dos dados aponta, portanto, para uma comunicação que conecte o impacto coletivo à experiência do consumidor: qualidade, preço, atendimento e conveniência. A identidade cooperativa pode reforçar a escolha, mas o levantamento não demonstra que ela substitua esses requisitos.
Menor renda acompanha menor conhecimento
O recorte por classe social revela uma diferença importante. O índice de conhecimento do cooperativismo chega a 59,7% na classe A e cai para 45% na classe E, distância de 14,7 pontos percentuais.
A desigualdade também aparece na percepção dos atributos. Enquanto 45% dos entrevistados da classe A associam cooperativas à colaboração e união de membros, essa relação aparece entre apenas 18% da classe E.
O resultado coloca em discussão o alcance da informação sobre o modelo entre os públicos de menor renda. Contudo, o infográfico não permite determinar as causas dessa diferença. Escolaridade, localização e experiência com cooperativas são fatores que precisam ser investigados em conjunto.
Para Samara, os recortes ajudam a identificar oportunidades de aproximação e a construir uma comunicação capaz de traduzir o cooperativismo para diferentes públicos.
Jovens reconhecem o SomosCoop, mas entendem menos o modelo
Entre os participantes de 18 a 30 anos, 36,1% afirmam conhecer, ter tido contato ou ouvido falar do SomosCoop. Na faixa de 51 anos ou mais, o percentual é de 20,8%.
Entretanto, a relação se inverte no índice de conhecimento do cooperativismo: os jovens registram 47%, enquanto o grupo mais velho alcança 56,8%.
O contraste sugere que o contato com a marca e o entendimento do modelo avançam em ritmos diferentes. Uma hipótese é que a comunicação alcance os jovens antes de produzir uma compreensão mais aprofundada. Outra possibilidade é que pessoas mais velhas acumulem maior experiência com cooperativas. Os dados apresentados não permitem confirmar essas explicações.
O desafio, nesse caso, é aproveitar o reconhecimento do SomosCoop para explicar como o cooperativismo se relaciona com trabalho, renda, consumo e participação nas decisões.
Próxima etapa exige aprofundar os dados
A pesquisa oferece um diagnóstico favorável sobre a expansão da visibilidade do cooperativismo. Ao mesmo tempo, aponta questões que dependem de novos cruzamentos: como pensam os cooperados em comparação com quem nunca participou de uma cooperativa? O que faria o público do “talvez” escolher um produto cooperativo? Quais experiências explicam a baixa associação à agilidade?
A divulgação da ficha metodológica completa e do questionário também ajudaria a avaliar a seleção dos participantes, a ponderação regional e a sequência das perguntas. Esses elementos são relevantes porque o próprio infográfico informa que os entrevistados receberam uma definição do modelo durante a pesquisa.
Para o movimento cooperativista, os resultados indicam uma agenda que combina comunicação e experiência prática. Ampliar a lembrança das marcas é um avanço. O próximo passo envolve fazer com que mais pessoas compreendam o funcionamento das cooperativas e reconheçam vantagens concretas em participar delas ou consumir seus produtos e serviços.
Assista à apresentação: Pesquisa de Imagem do Cooperativismo — transmissão do Sistema OCB.























