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Home Agronegócio

Colheita do arroz em SC: sob Pressão econômica e desafios de mercado

BR Cooperativo De BR Cooperativo
24/01/2026
Reading Time: 6 mins read
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Colheita do arroz 2

Abertura Oficial da Colheita do Arroz de SC 2026. Foto: Foto: Francine Ferreira.

SÃO JOÃO DO ITAPERIÚ – Sob um céu que testemunha o início de um novo ciclo de colheita do arroz, o setor orizícola de Santa Catarina deu o pontapé inicial simbólico na safra 2025/2026. A 8ª Abertura Oficial da Colheita, realizada nesta sexta-feira (23) na Fazenda Limoeiro, não foi apenas uma celebração de produtividade, mas um manifesto de resistência de uma cadeia que enfrenta sua maior crise de rentabilidade em dez anos.

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Um Cenário de Contraste: Fartura nos Estoques, Escassez nos Lucros

Enquanto as colheitadeiras começam a percorrer os campos, o mercado observa com cautela. De acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o Brasil inicia este ciclo com um estoque de passagem expressivo: cerca de 2,5 milhões de toneladas de arroz em casca.

Embora o volume garanta a segurança alimentar do país, ele atua como uma “âncora” nos preços pagos ao produtor. Em Santa Catarina, a realidade é drástica:

  • Queda de Preço: O valor da saca sofreu uma retração superior a 50% no último ano.
  • Valor de Mercado: Atualmente, o grão é comercializado a menos de R$ 50,00, patamar que, segundo especialistas, mal cobre os custos de produção em diversas regiões.

Radiografia da Safra 2025/2026 em Santa Catarina

Os dados da Epagri/Cepa revelam que o desânimo econômico refletiu diretamente na terra. Pela primeira vez em anos, todos os indicadores produtivos do estado apresentam viés de baixa, fruto da insegurança do setor e da redução de investimentos.

Indicador Estimativa 2025/2026 Variação (%)
Área Plantada 143.433 hectares – 1,28%
Produtividade Média 8.509 kg/ha – 4,89%
Produção Total 1.220.462 toneladas – 6,11%

O contexto nacional e a balança comercial

O momento vivido em Santa Catarina, responsável por 15% do abastecimento nacional, espelha um Brasil que ainda busca equilíbrio após as turbulências climáticas e logísticas dos últimos dois anos. Em 2024, as enchentes históricas no Rio Grande do Sul desestabilizaram o mercado, levando a importações emergenciais e uma volatilidade que ainda reverbera em 2026.

colheita do arroz
Foto: Francine Ferreira

No front externo, o arroz brasileiro tenta recuperar espaço. Apesar dos preços internos baixos serem um desafio para o produtor, eles tornam o produto competitivo para exportação, especialmente para mercados na América Latina e África. Contudo, o foco das indústrias catarinenses permanece na sustentabilidade do mercado doméstico.

“As indústrias catarinenses enfrentam um cenário de forte retração no valor do grão, margens comprimidas e instabilidade. A superação da crise passa pela cooperação e por políticas que valorizem quem transforma o arroz em alimento”, afirma Walmir Rampinelli, presidente do SindArroz-SC.

O futuro entre o prato e o porto

O SindArroz-SC, que completa 51 anos em 2025, reforça que o arroz não é apenas uma commodity, mas a base econômica de milhares de famílias catarinenses. A expectativa agora recai sobre o governo e instituições financeiras para medidas estruturantes que possam aliviar o peso das dívidas e garantir que a queda na produção estadual não se transforme em um problema crônico de abastecimento a longo prazo.

A resiliência é a marca da vez. Mas, como lembrado durante o evento, “resiliência não enche o silo sozinha“; é preciso estratégia para que o arroz catarinense volte a ser sinônimo de lucro, e não apenas de sobrevivência.

Entenda

Para entender por que a saca a menos de R$ 50,00 é tão alarmante, precisamos olhar para as entranhas dos custos de produção. Embora os estados vizinhos, Santa Catarina (SC) e Rio Grande do Sul (RS) operarem com modelos de negócios e desafios logísticos distintos.

Aqui está uma análise comparativa dos pilares produtivos para a safra 2025/2026:

Comparativo técnico-econômico: SC vs. RS

Critério Santa Catarina (SC) Rio Grande do Sul (RS)
Sistema Predominante Pré-germinado (intensivo) Semeadura direta/irrigada (escala)
Perfil da Propriedade Pequena/Média (familiar) Média/Grande (latifúndio)
Produtividade Média ~8.509 kg/ha ~7.800 a 8.200 kg/ha
Custo por Hectare Mais elevado (insumos/mão de obra) Menor (diluído pela escala)
Gargalo Logístico Relevo e escoamento interno Frete e infraestrutura pós-enchente

1. O peso do sistema produtivo

Em Santa Catarina, o sistema pré-germinado exige um manejo mais “cirúrgico” e intensivo. O custo com fertilizantes e defensivos por hectare tende a ser maior que no RS. Contudo, a produtividade catarinense é historicamente superior (frequentemente ultrapassando os 8,5 mil kg/ha), o que ajuda a equilibrar o custo unitário.

Já no Rio Grande do Sul, o custo é fortemente impactado pela energia elétrica (bombeamento de água para irrigação) e pela manutenção de máquinas em grandes áreas. Após os eventos climáticos extremos de 2024, o produtor gaúcho também carrega um custo financeiro de recuperação de solos e infraestrutura que o catarinense, em geral, não teve na mesma magnitude.

2. Ponto de equilíbrio (Break-even)

Especialistas do setor estimam que, para a safra 2025/2026:

  • Em SC: O custo operacional total para produzir uma saca gira em torno de R$ 55,00 a R$ 62,00, dependendo da região (como o Sul Catarinense ou o Alto Vale).
  • No RS: O custo varia entre R$ 52,00 e R$ 58,00.

O Diagnóstico: Quando o mercado paga menos de R$ 50,00, como mencionado no release do SindArroz-SC, ambos os estados estão “pagando para trabalhar”. A diferença é que o produtor de SC, por ter áreas menores, tem menos fôlego financeiro para suportar prejuízos consecutivos.

3. Logística e industrialização

Santa Catarina possui um parque fabril (indústrias de beneficiamento) extremamente eficiente e concentrado, representado pelo SindArroz-SC. Isso encurta a distância entre a lavoura e a indústria. No Rio Grande do Sul, a logística de escoamento até o Porto de Rio Grande ou para o centro do país é mais longa e custosa, o que muitas vezes “come” a vantagem competitiva da escala de produção.

Por que o preço caiu tanto?

Além do estoque de passagem de 2,5 milhões de toneladas, o mercado brasileiro sofre a pressão da paridade de exportação. Com o dólar apresentando oscilações e a entrada de arroz do Mercosul (Paraguai e Uruguai) com custos de produção tributária mais baixos, o arroz nacional perde força na formação de preço.

(Matéria desenvolvida com base em informações do SindArroz-SC e cooperativas locais)

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