As 10 melhores cooperativas do agro confirmam. O sistema cooperativista consolidou-se como o eixo central da estabilidade e do crescimento do agronegócio brasileiro, demonstrando uma capacidade singular de gerar e redistribuir riqueza mesmo em cenários de alta volatilidade macroeconômica. Em 2024 e 2025, o setor atingiu marcos históricos de movimentação financeira e eficiência operacional. De acordo com os dados consolidados do Anuário Brasileiro do Cooperativismo, o ramo agropecuário encerrou o exercício de 2024 com uma movimentação financeira superior a R$ 438,2 bilhões, o que representou um crescimento de 3,6% em relação ao ano anterior. Esse desempenho refletiu-se diretamente nas chamadas sobras do exercício, o equivalente ao lucro nas empresas mercantis. De acordo com os resultados divulgados, houve um salto de 48%, ultrapassando a marca de R$ 30,2 bilhões, um recorde absoluto para a série histórica do setor.
Antes de mais nada, este relatório detalha as dez cooperativas que mais se destacaram na distribuição de sobras e benefícios aos seus cooportanto, aerados no ciclo de 2025. Inclusive analisando os mecanismos de governança, a verticalização industrial e o impacto socioeconômico regional dessas organizações. Portanto, a distribuição de sobras não é apenas um indicador financeiro; ela representa o cumprimento do terceiro princípio universal do cooperativismo: a participação econômica dos membros. Diferente de instituições bancárias ou empresas de capital aberto que direcionam seus lucros a acionistas, as cooperativas reinvestem na comunidade e retornam o excedente diretamente ao produtor rural, proporcionalmente ao volume de negócios realizado por ele.
O que é o conceito de sobras e o contexto econômico do agronegócio?
Para compreender a magnitude dos valores distribuídos, o fundamental é definir a natureza jurídica e contábil das sobras. No modelo cooperativista, as sobras líquidas são apuradas após a dedução de todas as despesas operacionais e das reservas estatutárias obrigatórias. Entre elas temos o Fundo de Reserva e o Fundo de Assistência Técnica, Educacional e Social (FATES). O montante remanescente é submetido à Assembleia Geral Ordinária (AGO), onde os cooperados, na qualidade de donos do negócio, decidem como o recurso será partilhado: uma parcela geralmente é distribuída em dinheiro (espécie) e outra é capitalizada na conta capital individual de cada sócio, fortalecendo o patrimônio líquido da instituição e garantindo investimentos futuros.
Porém, o exercício de 2025 foi caracterizado por uma combinação complexa de fatores. Por um lado, o setor enfrentou a queda nos preços internacionais das commodities, juros elevados (taxa Selic) e desafios logísticos significativos. Por outro, a produtividade recorde em diversas regiões e a expansão da capacidade industrial permitiram que as cooperativas mitigassem esses efeitos negativos. De acordo com os registros de 2024, as cooperativas já eram responsáveis por 53% da originação nacional de grãos e fibras, além de 80% da produção de carne suína no país. Essa escala permitiu que as grandes organizações do setor mantivessem distribuições de resultados vultosas, servindo como um “décimo terceiro salário” para o produtor rural e injetando liquidez nas economias locais.
Ranking das 10 cooperativas com maior distribuição de resultados (Ciclo 2025)
A tabela abaixo compila os valores de distribuição de sobras e benefícios adicionais (como bonificações e juros sobre capital próprio) reportados pelas cooperativas nas Assembleias Gerais Ordinárias realizadas no início de 2025 e 2026, referentes aos exercícios imediatamente anteriores.
| Cooperativa | Sede | Valor Distribuído (Sobras e Benefícios) | Receita Global (R$ Bilhões) |
| Aurora Coop (Central) | Chapecó (SC) | R$ 1,200 bilhão (Sobras Totais) | R$ 26,9 |
| Coamo | Campo Mourão (PR) | R$ 716,3 milhões | R$ 28,7 |
| Comigo | Rio Verde (GO) | R$ 491,0 milhões | R$ 11,2 |
| Lar Cooperativa | Medianeira (PR) | R$ 335,9 milhões | R$ 23,2 |
| C.Vale | Palotina (PR) | R$ 274,4 milhões | R$ 25,2 |
| Copacol | Cafelândia (PR) | R$ 221,0 milhões | R$ 11,1 |
| Cocamar | Maringá (PR) | R$ 202,0 milhões | R$ 11,5 |
| Cooxupé | Guaxupé (MG) | R$ 134,4 milhões | R$ 10,7 |
| Capal | Arapoti (PR) | R$ 116,0 milhões (Sobra Líquida) | R$ 5,4 |
| Copercampos | Campos Novos (SC) | R$ 81,0 milhões | R$ 5,0 |
Análise detalhada dos líderes de distribuição
1. Aurora Coop: O paradigma da intercooperação
A Cooperativa Central Aurora Alimentos, operando sob a marca Aurora Coop, representa o ápice da estratégia de intercooperação no Brasil. Sendo uma cooperativa de segundo grau, seus resultados beneficiam diretamente as 14 cooperativas singulares filiadas, que somam mais de 87 mil famílias rurais. Em 2025, a Aurora registrou um desempenho excepcional, com sobras do exercício atingindo R$ 1,2 bilhão, o que representou um crescimento expressivo de 43,5% em comparação ao ano anterior.
Esse resultado recorde foi sustentado por uma receita operacional bruta de R$ 26,9 bilhões. A análise técnica indica que a melhora no mix de produtos e a eficiência nas cadeias de proteína animal foram cruciais para este desempenho. A cooperativa abateu 8,2 milhões de suínos e 347,9 milhões de aves em 2025, mantendo uma participação de quase 20% nas exportações brasileiras de carne suína. Ao distribuir R$ 1,2 bilhão em sobras para suas associadas, a Aurora fortalece a base do sistema cooperativista catarinense e paranaense, permitindo que as cooperativas singulares (como a Alfa e a Copercampos) tenham maior fôlego financeiro para seus próprios programas de retorno ao produtor.
A centralização da industrialização na Aurora Coop permite ganhos de escala massivos. Com investimentos superiores a R$ 1,4 bilhão em 2025 voltados para biosseguridade e modernização de plantas, a cooperativa conseguiu reduzir custos unitários de processamento. O modelo de “saúde única” (one health) adotado pela central integra a saúde animal, humana e ambiental, garantindo que o produto final tenha maior valor agregado nos exigentes mercados internacionais da Ásia e do Oriente Médio.
2. Coamo: Gigante em recebimento e distribuição proporcional
A Coamo Agroindustrial Cooperativa, sediada em Campo Mourão, Paraná, mantém-se como a maior cooperativa singular da América Latina. Em 2025, a instituição alcançou uma receita global de R$ 28,7 bilhões e uma sobra líquida total de R$ 2,019 bilhões. Desse montante líquido, após as deduções estatutárias, a cooperativa destinou mais de R$ 716,3 milhões para distribuição direta aos seus 32,7 mil cooperados.
A distribuição na Coamo é meticulosamente calculada com base na movimentação comercial de cada sócio. Em 2025, os valores fixados por produto foram:
- Soja: R$ 3,50 por saca de 60 kg.
- Milho: R$ 1,30 por saca de 60 kg.
- Trigo: R$ 1,30 por saca de 60 kg.
- Aveia: R$ 0,95 por saca de 60 kg.
- Café Beneficiado: R$ 8,00 por saca de 60 kg.
- Bens de Fornecimento: Devolução de 3,80% sobre o total adquirido na cooperativa.
Além das sobras diretas, a Coamo implementou programas de fidelização (Programa Fideliza) que geraram créditos de R$ 66,3 milhões para a aquisição de insumos e máquinas, além de devolver R$ 26 milhões em capital social para cooperados idosos. No total, o volume de benefícios repassados pela Coamo superou R$ 823 milhões no exercício de 2025, reafirmando seu papel como principal motor financeiro de 76 municípios nos estados do Paraná, Santa Catarina e Mato Grosso do Sul. A solidez financeira é evidenciada pelo patrimônio líquido de R$ 13,3 bilhões e pela capacidade de investir R$ 1,9 bilhão em infraestrutura, incluindo novos entrepostos e uma indústria de etanol de milho.
3. Comigo: Hegemonia no Cerrado e eficiência logística
A Cooperativa Comigo, com base em Rio Verde (GO), é o principal destaque do cooperativismo no Centro-Oeste. Ao completar 50 anos de história, a instituição reportou um faturamento de R$ 11,2 bilhões em 2025. O volume de sobras devolvido aos cooperados atingiu R$ 491 milhões, o que representa um dos maiores índices de retorno sobre o faturamento do setor.
O sucesso da Comigo está ancorado em uma gestão que prioriza a transparência e a auditoria rigorosa, conforme destacado pelo conselho de administração. A cooperativa tem investido pesadamente na industrialização local, com fábricas de rações, suplementos minerais e laticínios, o que permite capturar margens que seriam perdidas na exportação de grãos in natura. Além disso, a Comigo desempenha um papel estratégico na organização da logística regional e no fomento à inovação tecnológica por meio de eventos como a Tecnoshow, que impulsiona a economia local e consolida a cooperativa como referência no Cerrado.
A distribuição de R$ 491 milhões em sobras é um fator de estabilidade para os produtores goianos, especialmente em anos de custos elevados de produção. A cooperativa utiliza esses recursos para fortalecer o capital de giro de seus associados, garantindo que eles tenham liquidez para o planejamento das safras subsequentes e para investimentos em sustentabilidade e sucessão familiar nas propriedades.
4. Lar Cooperativa: Resiliência agroindustrial e diversificação
A Lar Cooperativa Agroindustrial, com sede em Medianeira (PR), demonstrou uma resiliência notável no ciclo 2025. Mesmo enfrentando uma quebra parcial na safra de soja no Mato Grosso do Sul e desafios sanitários como o primeiro foco de influenza aviária, a cooperativa alcançou uma receita líquida de R$ 23,2 bilhões, crescendo 14,4%. O montante total de benefícios distribuídos aos associados atingiu R$ 335,9 milhões, um dos maiores valores da história da organização.
A análise da composição da receita da Lar revela o segredo de sua rentabilidade: a diversificação. O segmento de Alimentos (principalmente aves) respondeu por 41,45% do faturamento, seguido por Grãos (36,75%) e Insumos (15,05%). Essa estrutura permitiu que a Lar gerasse sobras líquidas de R$ 101,3 milhões em 2025, mesmo em um cenário de preços deprimidos para os grãos. Os R$ 335,9 milhões distribuídos incluem:
- Sobras do exercício: R$ 101,3 milhões.
- Devolução de capital (Jubilados): R$ 59 milhões.
- Benefícios adicionais: Bonificações em insumos, soja e milho, sobras da Lar Credi e créditos em conta capital.
A Lar destaca-se também pelo seu compromisso com os associados veteranos, tendo homenageado 236 associados jubilados que atingiram os critérios de idade e tempo de permanência. Essa política de reconhecimento fortalece o vínculo geracional e a fidelidade do quadro social, que hoje se estende por quatro estados: Paraná, Mato Grosso do Sul, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
5. C.Vale: O salto nos resultados da agroindustrialização
A C.Vale, sediada em Palotina (PR), apresentou um dos crescimentos mais expressivos em termos de distribuição de resultados no último exercício. As sobras e outros benefícios destinados aos associados saltaram 83,21%, atingindo R$ 274,4 milhões em 2025. Esse desempenho é particularmente impressionante quando comparado ao crescimento do faturamento consolidado, que foi de 14,69%, alcançando R$ 25,2 bilhões.
A explicação para tamanha eficiência reside na maturidade do seu complexo agroindustrial. Em seu primeiro ano completo de operação, a esmagadora de soja da C.Vale processou 16,4 milhões de sacas do grão, operando com capacidade próxima de 3.500 toneladas por dia. O recebimento total de produtos atingiu 6,5 milhões de toneladas, um volume 27% superior ao ano anterior, o que compensou a desvalorização global dos grãos e as estiagens ocorridas no Rio Grande do Sul.
| Produção C.Vale (2025) | Volume Reportado |
| Soja | 53,76 milhões de sacas |
| Milho | 50,20 milhões de sacas |
| Frangos | 370 mil toneladas |
| Peixes | 54,26 mil toneladas |
| Mandioca | 138,9 mil toneladas |
| Suínos | 72,53 milhões de quilos |
| Leite | 19,82 milhões de litros |
A distribuição de R$ 274,4 milhões beneficia produtores em seis estados (PR, SC, RS, MT, MS e GO) e no Paraguai, demonstrando a escala transfronteiriça da cooperativa. A gestão da C.Vale tem focado em acelerar o recebimento e a expedição de produtos, com investimentos planejados para 2026 visando manter a saúde financeira e a segurança dos negócios com associados e fornecedores.
6. Copacol: Tradição e inovação na proteína animal
A Copacol (Cooperativa Agroindustrial Consolata), com sede em Cafelândia (PR), encerrou o exercício de 2025 com um faturamento de R$ 11,1 bilhões. Referência no setor de proteínas, a cooperativa destinou R$ 221 milhões para a distribuição aos seus mais de 9 mil associados, valor que abrange sobras, complementações e juros sobre capital.
Embora o montante distribuído tenha apresentado um recuo de 16,7% em relação ao recorde de R$ 270 milhões do ano anterior, ele ainda figura como um dos mais relevantes do país. A retração foi atribuída aos custos elevados de produção e às instabilidades no mercado internacional de avicultura, principal atividade da cooperativa. Apesar disso, a suinocultura da Copacol registrou seu melhor desempenho histórico, permitindo que o produtor recebesse até R$ 72 por suíno entregue. Na avicultura, o pagamento total chegou a R$ 2,08 por ave.
A Copacol adota a prática de antecipar 50% da distribuição das sobras em dezembro, facilitando o encerramento do ano financeiro dos produtores e aquecendo o comércio regional. Além disso, a cooperativa mantém reservas estratégicas — R$ 180 milhões para a avicultura e R$ 20 milhões para a suinocultura — visando garantir a rentabilidade das propriedades mesmo em cenários de crise sanitária ou de mercado.
7. Cocamar: Superação climática e recorde de retorno
A Cocamar Cooperativa Agroindustrial, sediada em Maringá (PR), reportou a distribuição de mais de R$ 202 milhões em sobras e benefícios aos seus cooperados no final de 2025. O valor superou os R$ 169 milhões destinados no ano anterior e beneficiou mais de 20 mil famílias de produtores rurais espalhadas por cinco estados: Paraná, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Goiás.
O faturamento da Cocamar em 2025 atingiu R$ 11,5 bilhões, uma expansão de 9% sobre os R$ 10,5 bilhões do exercício anterior. A composição do montante distribuído detalha-se da seguinte forma:
- Sobras do Exercício: R$ 122 milhões.
- Programas (ex: Selo Combustível Social): R$ 42,3 milhões.
- Crédito em Conta-Capital: R$ 35,2 milhões.
O presidente executivo da Cocamar, Divanir Higino, destacou que o retorno recorde foi alcançado apesar da quebra na safra de verão 2024/25 e de preços deprimidos. A cooperativa tem se fortalecido por meio de uma gestão profissionalizada e de um planejamento estratégico que prioriza a agregação de valor em culturas como laranja, café e pecuária de corte, além dos grãos tradicionais.
8. Cooxupé: Liderança global no mercado de café
A Cooxupé (Cooperativa Regional de Cafeicultores em Guaxupé), principal cooperativa de café do mundo, teve um desempenho financeiro histórico em 2024, cujos frutos foram distribuídos em 2025. O faturamento da entidade atingiu R$ 10,7 bilhões, uma alta expressiva de 67% em comparação ao resultado do ano anterior.
O montante anunciado para a distribuição de sobras foi de R$ 134,4 milhões, o maior desempenho da sua história. Esse resultado foi impulsionado pelo ótimo momento vivido pelos cafeicultores, com o preço da saca de café arábica atingindo cotações superiores a R$ 2.500, mais que o dobro do valor registrado dois anos antes. Em 2024, a Cooxupé recebeu 6,1 milhões de sacas de café e embarcou 5 milhões de sacas para o exterior, atendendo clientes em 50 países.
Diferente das cooperativas focadas em grãos e proteínas, a Cooxupé enfrenta desafios logísticos portuários específicos para o café. Mesmo assim, a eficiência operacional permitiu que o resultado líquido da cooperativa atingisse R$ 394,4 milhões, dos quais uma parcela significativa retornou aos produtores de Minas Gerais e São Paulo.
9. Capal: Crescimento sustentado nos Campos Gerais
A Capal Cooperativa Agroindustrial, com sede em Arapoti (PR), encerrou o exercício de 2025 com o maior faturamento de seus 65 anos de história: R$ 5,4 bilhões. A sobra líquida total da cooperativa foi de R$ 116 milhões, refletindo um período de alta produtividade para todas as culturas assistidas.
A recepção bruta de grãos na Capal cresceu 31%, atingindo 965 mil toneladas. O desempenho foi puxado por aumentos expressivos na recepção de cereais de inverno:
- Trigo: 156 mil toneladas (alta de 52%).
- Sorgo: 55 mil toneladas (alta de 60%).
- Soja: 400 mil toneladas (alta de 17%).
A Capal atua em mais de 82 municípios do Paraná e de São Paulo, investindo R$ 165 milhões em 2025 para modernizar sua infraestrutura de armazenagem e lojas agropecuárias. A política de distribuição de sobras da cooperativa é um diferencial competitivo na região dos Campos Gerais, onde a intercooperação com as co-irmãs Frísia e Castrolanda (através do sistema Unium) potencializa os resultados industriais.
10. Copercampos: Eficiência em sementes e grãos
A Copercampos encerrou 2025 com um faturamento total de R$ 5,016 bilhões, o que representou um crescimento de 17% em relação ao exercício anterior. A cooperativa, baseada em Campos Novos (SC), reportou um resultado do exercício superior a R$ 147 milhões.
O montante de sobras à disposição da assembleia foi de R$ 81 milhões. Os cooperados aprovaram a seguinte destinação:
- Capitalização (90%): Mais de R$ 73,1 milhões, proporcional ao movimento dos sócios.
- Distribuição em dinheiro (10%): Mais de R$ 8 milhões.
Além dessas sobras estatutárias, a Copercampos distribuiu R$ 32,8 milhões por meio de programas específicos de fidelidade e bonificação por produção de sementes e suínos. A cooperativa tem focado seus investimentos na construção de novos armazéns e em uma indústria de etanol, visando diversificar suas fontes de receita e garantir retornos sustentáveis para seu quadro de 2.550 associados.
Dinâmicas de rentabilidade e verticalização industrial
A análise das cooperativas que mais distribuíram sobras revela um padrão claro: a verticalização agroindustrial é o principal catalisador de excedentes financeiros. Organizações que transformam grãos em farelo, óleo, ração e, finalmente, em carne e leite, conseguem reter margens de lucro que as empresas que atuam apenas na originação e exportação de commodities não alcançam.
Margem de Sobras e Indicadores Operacionais
O setor cooperativo agropecuário brasileiro opera com margens líquidas que variam significativamente dependendo do mix de produtos. A eficiência do “Acto Cooperativo” permite que os custos tributários sejam otimizados, garantindo que o valor gerado permaneça no sistema.
A margem de sobras sobre a receita bruta pode ser analisada como um indicador de eficiência distributiva. Por exemplo, a Aurora Coop, ao gerar R$ 1,2 bilhão de sobras sobre R$ 26,9 bilhões de receita, apresenta uma margem de aproximadamente 4,46%. Já a Comigo, com R$ 491 milhões de sobras sobre R$ 11,2 bilhões, opera com uma margem de cerca de 4,38%. A Coamo, com R$ 2,019 bilhões de sobra líquida total sobre R$ 28,7 bilhões, alcança uma margem superior a 7%, refletindo sua escala massiva e baixo custo operacional unitário.
A verticalização também atua como um seguro contra a volatilidade do mercado. Quando os preços dos grãos (soja e milho) caem, os custos de produção da proteína animal também diminuem, permitindo que a cooperativa mantenha margens saudáveis na indústria de carnes. Esse mecanismo de equilíbrio interno foi fundamental para as cooperativas paranaenses e catarinenses em 2025, um ano marcado por preços deprimidos para as commodities agrícolas.
O papel social e regional da distribuição de resultados
A distribuição de sobras é frequentemente descrita como o “combustível” das economias regionais no interior do Brasil. Em municípios de pequeno e médio porte, o pagamento das sobras pelas cooperativas gera um impacto imediato no comércio de bens e serviços. Cooperativas como a Cocamar e a Copacol destacam que a injeção desses recursos ajuda os produtores a liquidar financiamentos, investir na modernização das propriedades e planejar o sustento familiar.
| Impacto das Sobras na Comunidade | Mecanismo de Ação |
| Liquidez Financeira | Pagamento de dívidas e planejamento de safra. |
| Estímulo ao Comércio | Aquecimento de vendas em lojas locais e serviços. |
| Investimento em Ativos | Compra de máquinas, equipamentos e reforma de silos. |
| Geração de Impostos | Incremento na arrecadação municipal por meio do consumo e produção. |
| Sucessão Familiar | Fortalecimento do patrimônio para a próxima geração. |
Além do impacto financeiro direto, as cooperativas investem em assistência técnica e educação cooperativista. A Cotrijal, por exemplo, embora distribua um montante menor em comparação às gigantes do Paraná (R$ 25,4 milhões em 2025), foca na ampliação de programas de capacitação para jovens e mulheres, garantindo a sustentabilidade social do sistema. No total, o setor cooperativo brasileiro emprega mais de 268 mil trabalhadores diretos, sendo um dos maiores geradores de postos de trabalho qualificados no campo.
Perspectivas e desafios estratégicos para 2026
As dez maiores cooperativas do agronegócio em distribuição de sobras entram em 2026 com desafios significativos, mas com bases financeiras sólidas. O foco estratégico está se deslocando para a sustentabilidade e a descarbonização da produção. Cooperativas como a Coamo e a Copercampos estão investindo em indústrias de etanol de milho e biodiesel, buscando se posicionar na transição energética global.
Além disso, outro ponto de atenção é a biosseguridade. O impacto da gripe aviária e de outros desafios sanitários exige investimentos constantes em infraestrutura de isolamento e controle, como demonstrado pela Aurora Coop e pela Lar. A internacionalização também segue como tendência, com as cooperativas buscando novos mercados para reduzir a dependência de destinos tradicionais e capturar prêmios por qualidade e rastreabilidade.
Em resumo, a solidez do sistema cooperativista brasileiro, evidenciada pelos R$ 30,2 bilhões em sobras totais do ramo agropecuário em 2024, garante que o setor continue sendo o pilar de sustentação da economia nacional. Assim, a distribuição proporcional desses resultados assegura que o pequeno e o médio produtor rural — que representam a maioria do quadro social de cooperativas como a Cocamar — permaneçam competitivos frente aos grandes grupos agroindustriais globais. Em última análise, o sucesso financeiro dessas dez cooperativas reflete o poder da união e da gestão eficiente em prol do desenvolvimento coletivo no campo.




























