Como ficam os serviços de limpeza no Carnaval 2026?
As cooperativas de catadores estão sendo incluídas?
É possível realizar um Carnaval sustentável, com economia circular e inclusão produtiva?
Em 2026, enquanto milhões de foliões ocupam ruas e avenidas do Brasil, essas perguntas ecoam com mais força. O Carnaval movimenta turismo, cultura e bilhões de reais. No entanto, também gera toneladas de resíduos sólidos em poucas horas. Como a maré da praia, sobe rapidamente e deixa rastros que precisam ser recolhidos antes que virem problema ambiental, social e fiscal.

Neste cenário, cooperativas de catadores surgem como protagonistas de uma agenda que une gestão de resíduos, economia circular e inclusão social. A inauguração da nova sede da Cooperativa Estação Reciclar, em Montenegro (RS), apoiada pela Fundação Banco do Brasil, oferece um pano de fundo concreto para entender o que está em jogo.
Cooperativas e limpeza urbana: a base invisível do Carnaval
Organizar a festa da folia exige planejamento logístico comparável a grandes operações industriais. E quando falamos de limpeza urbana em grandes eventos, a legislação é clara.
No Rio de Janeiro, a Lei Complementar Municipal nº 204/2019 determina que grandes eventos devem apresentar Plano de Gerenciamento de Resíduos Sólidos (PGRS) e contratar cooperativas de catadores para executar a coleta seletiva.
Mesmo assim, a Defensoria Pública da União (DPU) solicitou recentemente à Prefeitura do Rio informações sobre a participação de cooperativas no Carnaval 2026. Segundo o defensor público federal Cláudio Luiz dos Santos:
“A lei diz que, como pré-requisito para a autorização de grandes eventos, a organização precisa apresentar um plano de como seria a coleta seletiva e de como seria a separação dos resíduos sólidos com a contratação de cooperativas. Acontece que isso não vem sendo feito formalmente, como prevê a lei.”
A provocação é direta: quem está, de fato, fazendo a coleta seletiva no maior espetáculo da Terra? E mais: os catadores estão sendo incluídos de forma estruturada ou apenas de maneira informal e precária?
A discussão ganha relevância nacional, pois a Política Nacional de Resíduos Sólidos reconhece a dívida histórica com catadores e impõe ao poder público a promoção da inclusão socioambiental das cooperativas.
Montenegro (RS): quando a inclusão produtiva vira política estruturante
Enquanto algumas cidades ainda enfrentam entraves operacionais e jurídicos, Montenegro (RS) inaugura um modelo estruturado.
Com investimento social de aproximadamente R$ 4,1 milhões, a Fundação Banco do Brasil apoiou a nova sede da Cooperativa Estação Reciclar, beneficiando diretamente 28 famílias e impactando mais de mil moradores.
A nova estrutura permitirá:
- Atendimento de até 60 cooperados
- Gestão estimada de 780 toneladas de resíduos por ano
- Ampliação da renda e da profissionalização da cadeia
Para Gilson Lima, diretor da Fundação BB, o fortalecimento das cooperativas de catadores representa uma estratégia essencial para o desenvolvimento sustentável: ” e também para a transformação social de comunidades em situação de vulnerabilidade. A Fundação Banco do Brasil entende a reciclagem como uma potência socioambiental”, disse.
Aqui, a metáfora é clara: se a reciclagem é uma engrenagem da economia circular, os catadores são os dentes que fazem o sistema girar. Sem estrutura, a máquina falha.
O projeto integra ainda a reconstrução socioeconômica do Rio Grande do Sul após as enchentes de 2024, demonstrando que gestão de resíduos também é política de resiliência territorial.
Carnaval sustentável: Salvador aponta novo modelo
Em Salvador, o Carnaval 2026 traz uma experiência pioneira: o primeiro desfile descarbonizado, em parceria com o British Council e o Navio Pirata do BaianaSystem.
O modelo inclui:
- Inventário de emissões de carbono
- Monitoramento da qualidade do ar
- Coleta seletiva com cooperativas
- Logística reversa (como reaproveitamento de lonas e coleta de óleo de cozinha)
- Capacitação e fornecimento de EPIs para catadores
Rafael Ferraz, do British Council, resume:
“Grandes celebrações urbanas precisam começar a incorporar critérios ambientais desde o planejamento até o pós-evento.”
Já Leide Laje, da LAJE Sustentabilidade, reforça:
“Não basta reduzir emissões, é preciso cuidar das pessoas que fazem essa festa acontecer.”
O recado é objetivo: impacto ambiental e impacto social caminham juntos.
Economia circular: por que investir na base da cadeia é estratégico?
A especialista Isabela de Marchi, gerente de Sustentabilidade da SIG, destaca que a economia circular só ganha escala quando fortalece a base da cadeia:
“Investir em capacitação, gestão e infraestrutura na base do sistema reduz riscos operacionais, fortalece a segurança do abastecimento e amplia a competitividade.”
Os números reforçam essa visão:
- Crescimento de 64% no volume reciclado em municípios atendidos por iniciativas estruturadas
- Mais de 7,5 mil toneladas de materiais reinseridas no ciclo produtivo
- Redução da pressão sobre aterros
Ou seja, não se trata apenas de limpeza urbana. Trata-se de eficiência econômica, redução de riscos fiscais e fortalecimento produtivo.
O desafio do Carnaval 2026: espetáculo ou legado?
O Carnaval é uma explosão de cores, sons e alegria. Mas, após o último bloco, resta uma pergunta incômoda: o que fica?
Toneladas de resíduos podem virar ou passivo ambiental ou oportunidade de renda e inclusão. A diferença está na governança, no cumprimento da legislação e na contratação formal de cooperativas.
Montenegro mostra que estruturar a base gera dignidade e eficiência. Salvador demonstra que é possível integrar descarbonização e inclusão. O Rio enfrenta questionamentos jurídicos que podem redefinir o modelo de gestão.
Afinal, o verdadeiro desfile sustentável não é apenas o que passa na avenida. Mas sim, o que deixa legado social e ambiental depois que a música termina.
Perguntas Frequentes
Como funciona a coleta seletiva no Carnaval?
Ela deve ser prevista em Plano de Gerenciamento de Resíduos Sólidos (PGRS), com segregação na fonte e contratação de cooperativas de catadores, conforme legislação municipal e federal.
Cooperativas são obrigatórias em grandes eventos?
Sim. No Rio, a Lei Complementar 204/2019 exige a contratação de cooperativas para execução da coleta seletiva em grandes eventos.
O que é Carnaval descarbonizado?
É um modelo que mede emissões de carbono, adota práticas de redução, promove compensação ambiental e integra economia circular e inclusão social.
Por que cooperativas são estratégicas?
Porque fortalecem a economia circular, geram renda, reduzem custos públicos com resíduos e ampliam a eficiência ambiental.




























