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Cooperativas cervejeiras: mudança cultural para conquistas coletivas

Redação De Redação
02/02/2021
Reading Time: 7 mins read
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Cooperativas cervejeiras: mudança cultural para conquistas coletivas

Superar os efeitos da crise econômica provocada pela pandemia do coronavírus e retomar o crescimento são os desejos de qualquer empreendedor, mas o desafio está em encontrar o caminho para isso. Um deles pode ser o trabalho conjunto através de cooperativas cervejeiras, modalidade de atuação coletiva que oferece diversas possibilidades, mas que, para sua expansão, ainda esbarra na falta de comunicação, de cultura e de conhecimento sobre o seu funcionamento, embora já existam bons exemplos.

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“Para alterar este cenário é preciso haver uma mudança cultural no meio cervejeiro. É como eu sempre digo: ‘sozinho você pode até chegar mais rápido, mas aquele que vai acompanhado, com certeza consegue ir mais longe’”, avalia André de Polverel, presidente da Cooperbreja, a Cooperativa de Cervejeiros do Brasil.

A Cooperbreja nasceu em Ribeirão Preto (SP) e foi pioneira no setor com a implementação do seu brew shop. A cooperativa é um dos casos de organização coletiva no setor cervejeiro, mas não o único, tanto que serviu de base para o surgimento de outras associações semelhantes. É o caso da Cocersul, a Cooperativa Cervejeira Sul-Brasileira. Fundada em janeiro de 2019, em Brusque (SC), a organização tem 70 cooperados.

Nesse período, a cooperativa já acumula conquistas, como os contratos com duas fábricas para a fabricação de cervejas. Há também um projeto para uma planta para produção de rótulos próprios, que deverá sair em breve do papel. E, com a intenção de atender aos cooperados, a Cocersul disponibiliza tendas para a venda dos rótulos dos associados, assim como garante a participação nos eventos municipais e estaduais, além de ter o próprio festival, o Bier Fest Vale.

Para o diretor administrativo da Cocersul, Claudio Jair Martins, mesmo com conquistas em pouco tempo de atuação, o cenário poderia ser melhor. Em sua visão, a evolução passará necessariamente pela existência de mais cooperativas cervejeiras no Brasil.

“É um setor muito atraente e a partir do momento que começarmos a ter um grande número de cooperativas, as coisas começarão a mudar. Por outro lado, sou cooperativista e faço a constituição de cooperativas, sei o quanto há de possibilidades para constituirmos várias cooperativas cervejeiras no país, mudando a postura desse mercado”, pontua Martins.

Os cooperados contam com assessoria jurídica, contábil e facilidades, seja para produzir sua cerveja a custo reduzido ou para abrir uma conta corrente em cooperativas de crédito nas quais a Cocersul é associada. “O principal de tudo é que têm direito às sobras (lucros) da cooperativa no final do exercício. Estas são rateadas entre os cooperados proporcionalmente ao uso da cooperativa”, detalha Martins.

O potencial de desenvolvimento de mais cooperativas cervejeiras também é visto como algo necessário por Sandro Souza, diretor executivo da CoopCerva, a Cooperativa Mista de Produtores Cervejeiros, de Belo Horizonte. Porém, ele destaca a importância de a comunicação entre as organizações melhorar.

“Tem muito espaço para o desenvolvimento, mas ainda existe pouco diálogo. As cooperativas têm que caminhar juntas. Vemos muitas iniciativas cooperativistas e outros segmentos que se juntam, se apoiam e crescem junto. Acho que o nosso intuito é justamente isso, o coletivismo”, analisa Sandro.

Na tentativa de reforçar essa comunicação, a CoopCerva já está em contato com a Cooperbreja e a Cooperativa Agrária Agroindustrial, cooperativa-empresa do Paraná, a fim de criar “pautas em comum”.

A CoopCerva foi fundada em outubro de 2020, como uma alternativa às cervejarias da região que enfrentavam os efeitos da pandemia e ainda se reerguiam após sofrerem com os impactos do Caso Backer. Foi criada com 25 cooperados e, embora já estruturada, a organização ainda trabalha na regulamentação da sua documentação, atrasada em função da pandemia.

Mesmo à espera do registro efetivo, o trabalho já vem sendo feito, como destaca Sandro. Além de fidelizar o diálogo com outras cooperativas cervejeiras e fornecedores de insumos, foi alugado um imóvel que servirá como hub logístico para o armazenamento de materiais e produtos que os cooperados poderão revender posteriormente. No local, também há câmaras frias que permitirão às associadas estocarem barris de chopes e cervejas.

Para o hub logístico da CoopCerva também está sendo planejado um serviço de distribuição de bebidas. Em paralelo, a cooperativa busca cooperados que possuem plantas e equipamentos cervejeiros.

“Nós queremos que essas pessoas estejam dentro da cooperativa para que possam oferecer a ociosidade do equipamento ou da planta cervejeira à cooperativa e aos demais cooperados a um custo mais baixo”, explica Sandro. “A nossa cooperativa é mista porque visa a compra e venda de insumos, oferta de serviços e a nossa própria produção cervejeira para fazer divulgação no mercado e abrir espaços aos demais cooperados.”

Auxílio contra crise
O ano de 2020 foi um teste de fogo para praticamente todas as artesanais no Brasil. O período também serviu para as cooperativas cervejeiras avaliarem as suas estratégias e reformularem, eventualmente, os planos de atuação.

A Cooperbreja, com quase mil associados em seu quadro, passa por um processo de “reposicionamento”. Seus conselheiros administrativos e fiscais atuam mais no desenvolvimento de ações conjuntas que possibilitem uma participação maior da cooperativa nas vendas remotas. “Ela foi fundada como uma cooperativa de produção e decidiu se transformar em uma cooperativa de consumo”, conta André.

Na Cooperbreja, os associados e clientes podem adquirir equipamentos e insumos para a produção de cerveja. Funciona como uma “central de compras”, onde a cooperativa consegue preços mais “justos”.

Entre outros benefícios de ser um associado da Cooperbreja estão o suporte burocrático e cursos para aperfeiçoamento das atividades. A Cocersul também oferece auxílio aos cooperados para enfrentar as crises, como sublinha Claudio Jair Martins. Em 2020, a cooperativa ajudou no planejamento e eliminou todas as despesas possíveis, além de produzir as cervejas dos cooperados a menor custo.

“Nosso primeiro passo foi levar ao conhecimento dos cooperados como deveriam se precaver usando máscara, álcool em gel, etc. Outra questão foi disponibilizar a todos as facilidades ao crédito, podendo estes ter acesso a empréstimos com menores custos e demais benefícios”, afirma o diretor administrativo da Cocersul.

Mesmo que ainda não possa atuar oficialmente, a CoopCerva também já desenvolve estratégias para auxiliar os colaboradores em momentos mais críticos. Além de oferecer insumos com custo mais baixos, tem a ideia de criar um autosserviço com chopeiras automatizadas. “A intenção é colocar essa chopeira em vários pontos de Belo Horizonte onde os cooperados vão poder comercializar suas bebidas”, diz Sandro.

O serviço já é comum no país. Entretanto, o diferencial que a CoopCerva pretende oferecer é a possibilidade de o consumidor comprar o chope através de cartão ou aplicativo, podendo gastar esses “créditos” em qualquer chopeira com produtos das associadas. “Nós estaremos proporcionando para eles [cooperados] a redução do custo e uma maior exposição do produto deles”, destaca Sandro.

O que esperar para 2021?
O cenário incerto torna mais difícil fazer planos, mesmo que seja a curto prazo. Ainda assim, para 2021, as expectativas da Cooperbreja “são as melhores possíveis”, como destaca André.

As apostas do presidente da Cooperbreja estão focadas na chegada da vacina para combater a Covid-19 e nas ações colaborativas anunciadas pelos grandes players do mercado, que acabam impulsionando o setor como um todo.

“Neste sentido, chama nossa atenção a criação da Academia da Cerveja pela Ambev, iniciativa que tende a democratizar o conhecimento cervejeiro favorecendo uma ampliação natural do público consumidor para produtos de maior qualidade e com maior valor agregado”, pontua o presidente da Cooperbreja.

A Cocersul deverá manter seu planejamento estratégico desenvolvido em 2020. No documento, estão traçadas as metas para os próximos cinco anos da cooperativa. “Lá consta uma série de atividades que estamos realizando e dentre estas têm: ampliação de nossa sede social; aumento de número de cooperados; ampliação de produtos e serviços já determinados em nosso estatuto social; implantação e unidades de atendimento em vários estados e pontos estratégicos do país; implantação da loja de insumos; construir nossa fábrica e ter representação da cooperativa na maioria dos estados”, completa Martins.

Já para o diretor executivo da CoopCerva, só após a emissão da documentação final será possível realizar movimentações efetivas no mercado. “Vamos poder determinar quais são as demandas dos cooperados, o que o mercado está pedindo e buscar soluções em cima disso”, projeta Sandro.

Ainda assim, uma das primeiras demandas da cooperativa será agir para que ocorra uma definição formal do que é cerveja artesanal no Brasil. “A partir do momento que tem uma definição do produto, pode solicitar junto ao governo pautas e tratamentos específicos para a cerveja. Já tivemos uma reunião com a Secretaria de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais, e já começamos a conversar com eles sobre esse assunto”, informa o presidente da CoopCerva.

Os próximos passos deverão ser dados já em fevereiro, quando a CoopCerva terá um encontro com a Secretaria de Agricultura do Estado de Minas Gerais. “Nosso papel como cooperativa é justamente isso: entrar nessa demanda que existe no mercado e elaborar propostas que irão beneficiar não só aos nossos cooperados, mas a todo o mercado cervejeiro”, finaliza.

Fonte: Guia da Cerveja.

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