O acesso ao crédito, a qualificação da gestão e a inclusão tecnológica marcaram os debates da segunda edição do Fórum Sicredi Empreender, realizada em 16 de setembro, em São Paulo. Em quatro apresentações e painéis, especialistas discutiram como ampliar as oportunidades para quem empreende e preparar os negócios para as mudanças econômicas, sociais e ambientais.
A programação reuniu a cofundadora da Kiva, Jessica Jackley; o presidente do Instituto Locomotiva, Renato Meirelles; representantes de organizações que apoiam o empreendedorismo feminino; e especialistas em economia, tecnologia e financiamento. As discussões apontaram a necessidade de combinar soluções financeiras com orientação e conhecimento da realidade de cada empreendedor.
Para o cooperativismo de crédito, os debates destacaram o papel da proximidade com os associados. Conhecer as condições de cada negócio ajuda a identificar necessidades, orientar decisões e ampliar o acesso a recursos de forma adequada.
Classe C reúne 48% dos empreendedores brasileiros
Na palestra “Panorama do Empreendedor no Brasil”, Renato Meirelles apresentou dados que dimensionam a participação da classe C nos negócios. Segundo o levantamento exposto pelo presidente do Instituto Locomotiva, o Brasil tem 29,8 milhões de empreendedores, entre trabalhadores por conta própria e empregadores. Desse total, 48%, ou aproximadamente 14,3 milhões de pessoas, pertencem à classe C.
Entretanto, a participação no número de empreendedores não se traduz na mesma proporção de renda. A classe C concentra 24% da massa de renda do trabalho principal desse público. Já a classe A representa 13% dos empreendedores e reúne 42% da renda.
“Os números são fundamentais, mas precisamos enxergar as pessoas por trás deles”, afirmou Meirelles, ao defender que instituições e empresas considerem as diferenças sociais na oferta de produtos e serviços.
A desigualdade também aparece no acesso à inteligência artificial. Conforme o especialista, a tecnologia pode aumentar a produtividade, mas seus benefícios ainda chegam de maneira desigual aos pequenos empreendedores e aos grandes negócios.
Além disso, Meirelles destacou que 47 milhões de brasileiros que ainda não possuem um empreendimento gostariam de abrir um nos próximos três anos. Para ele, ampliar as oportunidades exige mecanismos de proteção financeira que permitam enfrentar dificuldades sem comprometer a continuidade do negócio.
César Bochi, diretor-presidente do Banco Cooperativo Sicredi, relacionou esse diagnóstico à atuação das cooperativas. Segundo ele, tecnologia e relacionamento precisam caminhar juntos para oferecer soluções que respeitem o momento e as características de cada associado.
Empreendedorismo feminino enfrenta barreiras de renda e sobrecarga
O painel “Mulheres que transformam: empreendedorismo, impacto e geração de valor” reuniu Adriana Barbosa, fundadora da Feira Preta e CEO do Instituto Feira Preta; Renata Malheiros, coordenadora nacional do Sebrae Delas; e Caroline Moreira Aguiar, diretora de Operações da Rede Mulher Empreendedora.
Segundo dados do Sebrae apresentados no encontro, o Brasil encerrou 2025 com 10,4 milhões de mulheres à frente de negócios, crescimento de 27% em dez anos. Apesar desse avanço, o rendimento médio das empreendedoras permanece 24% inferior ao dos homens.
Ao mesmo tempo, a responsabilidade pelo trabalho doméstico limita o tempo disponível para administrar e desenvolver os empreendimentos. Caroline destacou que, conforme pesquisa anual da Rede Mulher Empreendedora, mais de 80% das mulheres se declaram as principais responsáveis pelos cuidados do lar.
O acesso ao crédito também esteve no centro da discussão. As participantes observaram que muitas mulheres começam a empreender com recursos de familiares ou pessoas próximas. Adriana defendeu que a análise de crédito considere aspectos que vão além do histórico bancário, como as particularidades da empreendedora e sua atuação na comunidade.
As debatedoras apontaram a importância de reunir crédito, capacitação, orientação e redes de contato. Nesse contexto, o Sicredi informou que concedeu, em 2025, mais de R$ 14,8 bilhões em crédito para empresas lideradas por mulheres, com carteira superior a R$ 17,5 bilhões nesse segmento.
Tecnologia exige gestão e qualificação profissional
No painel “Empresas preparadas para o futuro”, o economista, sociólogo e diplomata Marcos Troyjo e o superintendente de Operações e Canais Digitais do BNDES, Marcelo Porteiro, discutiram os efeitos da inteligência artificial, das mudanças climáticas e do cenário econômico sobre os negócios. Gustavo Freitas, diretor executivo de Crédito e Segmentos do Sicredi, mediou a conversa.
Troyjo afirmou que a fluência tecnológica passou a integrar as competências necessárias em diferentes profissões. Para ele, saber interagir com ferramentas de inteligência artificial e combinar conhecimentos de áreas distintas influencia a capacidade de adaptação das empresas.
Porteiro, por sua vez, defendeu a aproximação entre negócios, universidades e centros de pesquisa para estimular a inovação. Também destacou que as mudanças climáticas precisam fazer parte do planejamento, especialmente na agricultura.
O executivo do BNDES relacionou a competitividade do agronegócio brasileiro à combinação de políticas públicas, capitalização e tecnologia. Nesse processo, ressaltou a contribuição das cooperativas de crédito, que conhecem as necessidades dos produtores pela proximidade com os associados.
A discussão também abordou a organização financeira das empresas. Diante do cenário de inadimplência mencionado no painel, Porteiro recomendou aprimorar controles e processos de gestão para avaliar as alternativas de financiamento disponíveis.
Assim, os participantes defenderam uma preparação que reúna inovação, formação profissional, eficiência operacional e capacidade de adaptação.
Jessica Jackley destaca confiança e inclusão financeira
A cofundadora da Kiva, Jessica Jackley, abordou o empreendedorismo como instrumento de transformação das comunidades. Na palestra “O futuro das oportunidades: empreendedorismo e inclusão financeira como motores de transformação”, ela defendeu que o acesso a recursos caminhe com confiança, dignidade e reconhecimento do potencial das pessoas.
Jessica relatou experiências na África, onde conheceu pequenos empreendedores e acompanhou como os empréstimos poderiam apoiar a criação e o desenvolvimento de negócios. Essas vivências contribuíram para o surgimento da Kiva, organização voltada ao microcrédito.
Segundo ela, compreender as histórias de quem empreende permite sobretudo identificar capacidades e oportunidades que uma análise concentrada apenas na falta de recursos pode deixar de perceber.
Ao comentar o modelo do Sicredi, Jessica apontou conexões com a trajetória da Kiva, principalmente na atuação coletiva para reduzir barreiras. Também destacou a presença da instituição em pequenos municípios como um caminho para apoiar os negócios e o desenvolvimento das comunidades.
Para ampliar oportunidades, a empreendedora apresentou quatro atitudes: questionar narrativas que limitam as pessoas, compartilhar o protagonismo, preservar a esperança e agir mesmo sem dispor de todos os recursos necessários.
“Quando trabalhamos juntos, criamos condições para que todos possam alcançar seu maior potencial”, afirmou.
Dessa forma, os quatro debates convergiram para uma questão: o desenvolvimento dos negócios depende tanto do acesso a ferramentas e recursos quanto da capacidade de compreender quem empreende. Para as cooperativas de crédito, isso envolve associar financiamento, orientação e relacionamento com as comunidades.
Perguntas frequentes
O que foi o Fórum Sicredi Empreender?
Foi um evento que reuniu especialistas e executivos para discutir desafios e oportunidades do empreendedorismo. A segunda edição ocorreu em 16 de setembro de 2026, em São Paulo.
Quais temas foram abordados nos quatro debates?
O perfil dos empreendedores brasileiros, os desafios dos negócios liderados por mulheres, a preparação das empresas para o futuro e a inclusão financeira como instrumento de transformação social.
Qual foi o papel do cooperativismo de crédito nas discussões?
Os participantes destacaram a proximidade das cooperativas com os associados como uma condição para compreender suas necessidades e combinar crédito, orientação e soluções adequadas a cada negócio.























