A possível redução da jornada 6×1, com mudanças na escala semanal e diminuição do limite constitucional de 44 para 40 ou até 36 horas, reacendeu um debate que ultrapassa o campo trabalhista e atinge diretamente o cooperativismo, o agronegócio e a indústria nacional.
Enquanto o Congresso discute a proposta sob o argumento de modernização social, lideranças cooperativistas e entidades empresariais pedem cautela e estudos técnicos aprofundados. O temor é claro: aumento de custos, perda de competitividade internacional e avanço da informalidade.
Cooperativismo agropecuário vê risco estrutural
O presidente da Organização das Cooperativas do Estado de Santa Catarina (OCESC), Vanir Zanatta, manifestou preocupação com os impactos da medida sobre o setor agropecuário, especialmente nas cooperativas que operam em regime contínuo.
De acordo com ele, a redução da jornada sem redução proporcional de salários pode elevar o custo da hora trabalhada e gerar efeitos em cadeia na economia.

“A redução da carga horária semanal de trabalho sem análise dos seus impactos nas diversas áreas da economia pode inviabilizar setores sensíveis”, alerta Zanatta.
No agronegócio, a lógica operacional não segue o relógio urbano. Pecuária leiteira, avicultura e suinocultura exigem manejo diário, inclusive aos fins de semana e feriados. Lavouras dependem de janelas climáticas específicas para plantio e colheita.
Em Santa Catarina, onde o cooperativismo agropecuário é protagonista e o desemprego ficou em 2,3% no terceiro trimestre de 2025, (cenário próximo ao pleno emprego), o desafio adicional seria encontrar mão de obra para recompor jornadas.
Levantamento da OCESC aponta que, apenas nas cooperativas agropecuárias catarinenses, a redução para 40 horas semanais exigiria a contratação de 11.516 novos trabalhadores, com custo adicional estimado em R$ 69 milhões por mês.
A pergunta que ecoa no setor é direta: quem absorverá essa conta?
CNI projeta aumento de até R$ 267 bilhões ao ano com Jornada 6×1
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) também divulgou estudo com projeções econômicas sobre a redução da jornada de trabalho. Para a entidade, a medida pode elevar em até R$ 267,2 bilhões por ano os custos com empregados formais. Isso significa um acréscimo estimado de até 7% na folha de pagamentos.
Assim sendo, o presidente da CNI, Ricardo Alban, ressalta que o impacto não será homogêneo entre as regiões.
“Qualquer debate sobre a redução da jornada precisa ser conduzido com cautela. O impacto não será igual em todas as regiões, porque o Brasil tem realidades produtivas diferentes”, afirma Alban.
Impactos regionais estimados (cenário com horas extras):
- Sul: até 8,1% de aumento nos custos
- Sudeste: 7,3%
- Nordeste: 6,1%
- Norte e Centro-Oeste: 5,5%
Em valores absolutos, o Sudeste concentraria o maior impacto financeiro, com elevação estimada em até R$ 143,8 bilhões.
A CNI avaliou dois cenários:
- Compensação das horas reduzidas via horas extras.
- Reposição por meio da contratação de novos trabalhadores.
Mesmo no segundo cenário, considerado menos oneroso, o aumento percentual dos custos permanece significativo. Além disso, o estudo aponta que a recomposição integral das horas é “economicamente improvável e operacionalmente inviável” em diversos segmentos industriais.
Produtividade e informalidade entram no debate
Outro ponto levantado por lideranças do cooperativismo é o desempenho brasileiro no ranking global de produtividade da Organização Internacional do Trabalho (OIT). O Brasil ocupa a 94ª posição entre 184 países avaliados.
A média semanal trabalhada no país é de 38,9 horas, inferior à de 97 países do ranking.
Diante desse cenário, entidades empresariais alertam para um possível crescimento da informalidade. Certamente, se o custo do trabalho formal aumentar sem ganho equivalente de produtividade, parte das atividades pode migrar para relações informais.
No campo, isso representa risco adicional à seguridade do trabalhador rural e à estabilidade das cadeias produtivas.
Argentina segue caminho oposto
Enquanto o Brasil discute reduzir a jornada semanal, a Argentina aprovou recentemente a mais profunda reforma trabalhista em cinco décadas.
Entre as mudanças da redução da jornada 6×1 estão:
- Ampliação da jornada diária de 8 para até 12 horas (mantendo 48 horas semanais);
- Flexibilização de contratos;
- Redução de encargos indenizatórios;
- Simplificação da contratação formal.
A reforma foi aprovada por 135 votos a 115 na Câmara argentina e busca enfrentar um cenário de mais de 40% de informalidade no mercado de trabalho.
O contraste é evidente. Enquanto a Argentina aposta em flexibilização para aumentar competitividade, o Brasil avalia endurecer regras de jornada em setores que competem diretamente com os argentinos na exportação de soja, milho e carnes.
Em mercados de commodities, margens são estreitas. Diferenças de dois ou três pontos percentuais no custo operacional podem redefinir contratos internacionais.
Cooperativismo pede debate técnico e setorial
O cooperativismo agropecuário defende que mudanças na jornada podem ser discutidas, desde que fundamentadas em estudos técnicos e adaptadas às especificidades setoriais.
A proposta de alteração constitucional uniforme para todos os setores preocupa especialmente cooperativas agroindustriais, frigoríficos e estabelecimentos rurais que operam de forma ininterrupta.
Porém, para especialistas, se houver mudança, ela deve vir acompanhada de:
- Transição gradual;
- Diferenciação setorial;
- Eventual desoneração da folha;
- Mecanismos de compensação fiscal;
- Fortalecimento da negociação coletiva.
Sem esses instrumentos, o risco apontado pelo setor inclui aumento de preços ao consumidor, perda de competitividade internacional e pressão inflacionária sobre alimentos básicos.
O que está em jogo na redução da jornada 6×1?
O debate sobre a jornada 6×1 deixou de ser apenas trabalhista. Ele toca diretamente a sustentabilidade do cooperativismo, a segurança alimentar, o superávit da balança comercial e a geração de emprego formal.
De acordo com as análises, a discussão que se impõe não é ideológica, mas estrutural:
Mas como equilibrar proteção social, competitividade internacional e realidades produtivas distintas em um país continental?
Em resumo, o cooperativismo brasileiro aguarda que a resposta venha acompanhada de dados, responsabilidade e visão estratégica de longo prazo.




























